top of page

Vida centenária

  • Foto do escritor: CAMILA RODRIGUES CUNHA
    CAMILA RODRIGUES CUNHA
  • 12 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Aos 113 anos, Antônio José Fernandes coleciona memórias do cangaço, conversa com passarinhos e desafia o tempo com uma lucidez afiada no bairro Guanandi


Adrielle Almeida e Everson Castilho


Antônio não usa relógio. Para quem já viu o calendário virar cento e treze vezes, a pressa é uma invenção moderna que não lhe diz respeito. Sentado na varanda de uma casa simples no bairro Guanandi, em Campo Grande, ele prefere conversar com quem realmente entende da passagem das horas: os passarinhos.

— Eu conversava com eles e ficava admirado. Bem-te-vi, sabiá... Eu chamava pelo nome e jogava milho, jogava arroz. "Olha lá ele conversando com o bem-te-vi", o povo dizia — conta ele, com a voz grave de quem tem um século de poeira na garganta.

Nascido em Aracaju, Sergipe, no dia 13 de junho de 1912, Antônio José Fernandes carrega o peso de ser, extra-oficialmente, o homem mais velho do mundo — quatro meses à frente do atual recordista do Guinness Book, João Marinho Neto, um cearense de Maranguape. Mas ali, acomodado em sua cadeira, a disputa por títulos mundiais parece algo distante e pequeno diante de sua realidade. Com uma saúde que intriga a medicina, dispensando remédios contínuos e sem sinal de pressão alta ou diabetes, Antônio é mais do que um número em um livro de recordes: é um arquivo vivo, uma testemunha ocular de um Brasil profundo que a maioria só conhece pelas páginas dos livros de história.

A pele de Antônio, marcada por poucas rugas para quem atravessou um século inteiro, parece guardar um segredo que ele não encontra em dietas ou biologias. Se alguém busca a receita de tanta vida, ele aponta o dedo para o alto, convicto de sua filiação divina. "Pergunta para Papai do Céu e para Mamãe", diz, simplificando o mistério. Para Antônio, não há mágica, apenas herança: "Meu pai verdadeiro é Papai do Céu e Mamãe do Céu. Eu só peço saúde e para me defender dos bichos".


O Menino e o Cangaço

A memória de Antônio é um terreno vasto onde o presente e o passado remoto se misturam sem aviso prévio. Se a infância não teve espaço para brincadeiras, teve sobra de trabalho. O pequeno Antônio trocou cedo os brinquedos pelo corte da cana nas usinas de açúcar de Sergipe, sob o sol inclemente do nordeste. Mas foi nas andanças pelo mato com a avó, uma "cabocla brava" que conhecia os segredos das veredas, que ele testemunhou a história cruzar seu caminho.

— Lampião é aquele objeto de querosene que a gente acende na parede. O nome dele é Capitão Virgolino. E a mulher dele é Maria Bonita — ensina, corrigindo com paciência quem ousa usar o nome popular.

Sua avó, destemida, caminhava com o bando. Antônio, menino de olhos atentos, via de perto a figura que fazia o sertão tremer. Quando Maria Bonita passava, o mundo parecia parar; "nego ficava doido", hipnotizado pela presença da Rainha do Cangaço. Naquele tempo, sobreviver exigia mais do que força; exigia a astúcia de ler os sinais do mato e entender a linguagem das "encruzilhadas". O medo que o "Capitão" impunha não era o de um monstro, mas o de uma tempestade inevitável, uma força da natureza que se respeita para continuar vivo. Para o bisneto que corre pela sala com um celular na mão, Lampião é um vulto pixelado no YouTube. Para Antônio, é cheiro de pólvora, carne e osso, uma lembrança viva que se recusa a desbotar.



Imagem: Rosimeire Seixas.


Da Mata Atlântica Nordestina ao Cerrado Sul-Mato-Grossense

Aos 18 anos, José Antônio deixou o estado de Sergipe e mudou-se para São Paulo, onde viveu até o nascimento de sua primeira filha. Como sempre foi um homem do campo, decidiu então seguir seu desejo de viver em meio à natureza e mudou-se para o Mato Grosso do Sul, indo para Bodoquena, na Fazenda Ouro Verde, onde viveu ao lado de sua esposa. Ela faleceu no ano 2000, aos 66 anos, vítima de um infarto, deixando lembranças dos anos compartilhados.

Depois da perda, José Antônio precisou confortar as filhas do jeito simples e carinhoso que sempre teve: dizia a elas que a mãe havia “viajado” e, quando as encontrava chorando, falava em tom descontraído que, se continuassem assim, fariam a alma dela “pesar”, dificultando sua subida ao céu, uma forma amorosa que encontrou para aliviar a dor.

Sua filha mais velha, Ivanilda, hoje com 56 anos, mudou-se para Campo Grande em 2004 e guarda na memória a imagem do pai trabalhando na lavoura, exercendo com orgulho a profissão de agricultor. Mesmo aposentado, José Antônio ainda expressa o desejo de voltar a morar no campo. Antes de viver com Ivanilda, morava na Colônia Conceição, hoje reside com a filha e a neta na periferia de Campo Grande, carregando consigo a essência do homem simples, trabalhador e ligado à terra.



A rotina do século

O relógio biológico de Antônio insiste em despertar às três da manhã, ecoando os tempos de ordenha e lida no campo, mas o corpo agora obedece a um ritmo mais ameno. A dieta de um centenário tem lá seus caprichos: ele adora manga, e o "jabá com farinha" dos velhos tempos ainda lhe apetece, mesmo que a família insista em pratos mais balanceados.

Na cozinha, entre as panelas e a conversa com a neta Patrícia, o centenário desconversa quando o assunto é receita. Nem a insistência da família para ele ensinar o segredo de uma galinhada ou de um mungunzá o convence a assumir o fogão.

— Quem sabe fazer feijão é Papai do Céu e Mamãe do Céu. Eu só como.

Para Antônio, a modernidade é um mistério embalado a vácuo. Ele observa com desconfiança a galinha congelada do supermercado, tão diferente daquelas que ele criava e abatia. O mundo onde a comida vem em pacotes e as conversas acontecem através de telas luminosas é um espetáculo que ele prefere assistir de uma distância segura.

A fé, no entanto, permanece inalterada. Quando uma bisneta lhe oferece uma banana, o agradecimento vem carregado de uma polidez antiga e genuína: "Deus te ame". Sua oração não precisa de rituais complexos; é uma conversa diária e franca com seus pais celestiais, tão natural quanto conversar com um vizinho na cerca.


Imagem: Rosimeire Seixas.


O Tempo que não passa

Para nós, meros mortais, 113 anos é uma abstração. É difícil conceber que este homem, que agora recusa doces e prefere o silêncio, nasceu no mesmo ano em que o Titanic afundou. Ele já era um homem adulto quando a Segunda Guerra Mundial começou. Já era um homem maduro, cinquentão, quando o homem pisou na Lua.


Arte: Adrielle Almeida.


Mas Antônio não mede a vida por eventos históricos. Ele a mede por perdas e permanências. Por árvores derrubadas e plantadas. Por filhos criados.

Se alguém espera um conselho grandioso para entender como viver tanto, Antônio nega. Não há fórmula mágica, não há guru no Guanandi. Há apenas um homem que aprendeu a caminhar devagar, a respeitar as encruzilhadas e a conversar com os passarinhos, talvez porque eles sejam os únicos que, assim como Antônio, não se preocupam com o tempo, apenas com o viver.

— Eu não moro aqui não — diz ele, num momento de lucidez, referindo-se à cidade, ou talvez, a este tempo. — Eu gosto é de passear no mato.

E ali, na varanda do bairro urbano, fechando os olhos, Antônio volta para o mato, onde o Bem-te-vi canta e o Capitão Virgolino ainda cavalga, eternamente preservados na mente do homem que venceu o tempo.

Comentários


  • alt.text.label.Facebook
  • alt.text.label.Instagram

©2023 por Textão Jornalístico. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page