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Quando a vacina está disponível, mas o cuidado não

lauras05
há 16 minutos
6 min de leitura

Campanha antirrábica gratuita percorre imóveis de Campo Grande, mas encontra obstáculos para garantir a proteção dos animais e expõe desafio da guarda responsável

 

Nicolly da Silva


Agentes do Centro de Controle de Zoonoses (CZZ) têm dificuldades para entrar nas casas e vacinar os animais. Foto: Nicolly da Silva
Agentes do Centro de Controle de Zoonoses (CZZ) têm dificuldades para entrar nas casas e vacinar os animais. Foto: Nicolly da Silva

A equipe bate à porta. Ninguém responde. Na próxima casa também não há resposta. Na seguinte, mais uma vez o silêncio. Em uma manhã de vacinação contra a raiva em Campo Grande, encontrar os animais é, muitas vezes, apenas o primeiro desafio. É preciso primeiro encontrar quem cuida deles.

Para levar gratuitamente a vacina antirrábica a cães e gatos, os agentes do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) percorrem os bairros e imóveis da cidade. Mas, boa parte das casas visitadas estava vazia. Entre os poucos tutores encontrados, a maioria autorizou a aplicação da dose nos animais.

A cena ajuda a revelar uma dificuldade menos evidente da vacinação, um animal pode estar a poucos metros de uma equipe pronta para imunizá-lo e, ainda assim, permanecer sem o imunizante pois ninguém estava em casa para recebê-la. Em outros casos, o problema é diferente: mesmo quando o tutor está presente, a aplicação pode ser recusada.

Durante as visitas realizadas e acompanhadas pelos agentes, entre 7% e 8% dos tutores registram recusa à vacinação. Em uma parcela ainda maior, entre 40% e 45% dos imóveis visitados, não havia ninguém em casa no momento da passagem dos agentes.

A rotina das equipes mostra que a ausência do tutor não significa necessariamente que ele tenha optado por não vacinar. Quando não encontram ninguém no imóvel, os agentes deixam uma orientação para que o responsável procure o Centro de Controle de Zoonoses e leve o animal para receber a dose. Segundo Maria Aparecida Conchecunha, médica veterinária do CCZ, muitos tutores não retornam para completar a vacinação.

A médica veterinária Maria Aparecida Conchecunha explica os desafios encontrados pelas equipes do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) durante a vacinação antirrábica de cães e gatos em Campo Grande. Foto: Nicolly da Silva
A médica veterinária Maria Aparecida Conchecunha explica os desafios encontrados pelas equipes do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) durante a vacinação antirrábica de cães e gatos em Campo Grande. Foto: Nicolly da Silva

Entre as negativas, aparece também a desconfiança em relação à eficácia e à segurança da vacina oferecida pelo serviço público. Há quem prefira pagar pela aplicação em clínicas particulares, onde a dose pode custar entre R$50 E R$100 reais, ou acredite que o imunizante disponibilizado pelo poder público seja diferente ou menos seguro do encontrado no atendimento privado.

Segundo Aparecida, as razões para a recusa podem variar. Há tutores que já vacinam os animais em clínicas particulares, mas também aqueles que simplesmente desconsideram a vacina oferecida pelo serviço público por acreditarem que teria qualidade inferior.

Mas de onde vem essa desconfiança? E quando a decisão de não vacinar deixa de ser apenas uma escolha do tutor e passa a representar uma falha na responsabilidade de cuidar do animal?

Para a professora do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Juliana Galhardo, de 46 anos, a resposta é não. Segundo ela, não há diferença de qualidade entre a vacina utilizada na campanha pública e a comercializada em atendimento particular.

A desconfiança, porém, não surgiu sem motivo. Em 2010, a vacinação contra a raiva chegou a ser suspensa no país após a morte de 217 animais entre cães e gatos e a ocorrência de reações adversas associadas à campanha daquele ano. O episódio passou a fazer parte da memória de tutores e ajuda a contextualizar a permanência de dúvidas sobre a segurança da vacina pública.

Mais de uma década depois, a professora explica que o cenário atual é diferente e que os imunizantes utilizados passam por critérios de controle. A vacina antirrábica utilizada em cães e gatos é inativada, ou seja, não utiliza o vírus vivo para provocar a resposta imunológica.

Ainda assim, como qualquer vacina, ela pode provocar reações. Juliana explica que é preciso diferenciar os possíveis efeitos adversos da aplicação do risco representado pela própria doença. No caso da raiva, a preocupação está justamente no fato de se tratar de uma doença grave e fatal. A dificuldade de acesso também pode contribuir para que um animal permaneça sem imunização. Para a veterinária, alguns tutores não conseguem levar os cães até o CCZ, enquanto outros não procuram uma clínica particular para realizar a vacinação.

“Se eu não sou uma pessoa responsável, eu cato o bilhetinho e jogo no lixo. E simplesmente não vacino. Muitas pessoas não têm para pegar seus cães e os levar pro CCZ, né? Por mil motivos. E muitas pessoas também não vão num veterinário privado comprar a vacina. E aí, fica o nem-nem. Nem usa a vacina pública, nem paga pela vacina”, afirma Juliana.

                        Agente aplica vacina em cão de porte grande. Foto: Nicolly da Silva
                        Agente aplica vacina em cão de porte grande. Foto: Nicolly da Silva

Uma doença que não desapareceu


A questão ganha outra dimensão quando se considera que a vacinação não protege apenas o animal. Embora Campo Grande não tenha atualmente o ciclo canino da raiva, o vírus contínua circulando em animais silvestres, especialmente morcegos. Segundo o Centro de Zoonoses, a Capital já registrou 11 casos de morcegos positivos para a doença.

Cães e gatos podem entrar em contato com esses animais, principalmente quando um morcego cai em quintais ou entra em residências. Para Maria Aparecida, os animais domésticos vacinados funcionam como uma barreira de proteção contra a transmissão da doença.

Por mais que o ciclo da raiva entre cães e gatos esteja controlado na capital sul-mato-grossense, a doença não desapareceu. A circulação do vírus entre animais silvestres mantém a necessidade de prevenção e faz com que a vacinação continue sendo uma ferramenta importante para evitar que a doença volte a atingir a população de animais domésticos.

“A raiva é uma doença gravíssima, ela é fatal, porém ela é 100% prevenível. Então qual a principal forma de prevenção? É a vacinação dos cães e gatos”, explica Maria Aparecida. É nesse ponto que a vacinação deixa de ser apenas um cuidado individual. Manter cães e gatos imunizados ajuda a preservar o controle da doença e impede que um eventual contato com um animal infectado se transforme em um novo ciclo de transmissão.

A prevenção também depende de reconhecer possíveis formas de exposição. Um animal que tem acesso à rua, por exemplo, pode entrar em contato com outros animais sem que o tutor saiba. Por isso, a ausência de casos de raiva entre cães e gatos não significa que a vacina tenha perdido sua importância.

Além da proteção contra a raiva, a vacinação acaba revelando uma questão mais ampla: o que significa assumir a responsabilidade por um animal? A vacinação é apenas uma das medidas necessárias para garantir saúde e bem-estar ao longo da vida de um pet.

Para Maria José, de 62 anos, manter a vacinação em dia é apenas uma parte do compromisso assumido quando se decide ter um animal. Tutora de dois cães, ela conta que também se preocupa com vermifugação, higiene, vitaminas e prevenção contra carrapatos.

“Eu acho que tem que ter um cuidado com eles, porque eles dependem da gente”.

A percepção, no entanto, não é a mesma para todos os tutores. Na avaliação de Maria José, ainda existem pessoas que assumem um animal sem considerar os cuidados que ele vai exigir ao longo da vida.

“Muitos sim, muitos não, né? Tem muitos que pegam por pegar o bichinho, até morre à míngua. Ficou doente, solta o animalzinho, não quer gastar, não quer cuidar do bichinho”, relata.

O abandono aparece, nesse contexto, como uma das consequências mais graves da falta de responsabilidade. Mas a negligência pode começar antes dele, em cuidados que parecem simples, como manter a vacinação, procurar atendimentos quando o animal adoece e garantir condições adequadas de saúde e lazer

Para a professora Juliana Galhardo, ter um animal envolve assumir não apenas o vínculo afetivo, mas também os custos e cuidados necessários durante toda a vida. Ela ressalta que a responsabilidade do tutor vai além de manter o animal dentro de casa, envolve também vacinação, acompanhamento veterinário e atenção às condições em que o animal vive.

A vacinação antirrábica, neste sentido, funciona como um dos exemplos mais básicos dessa responsabilidade. Quando o serviço público oferece o serviço gratuitamente e ainda realiza a busca ativa nos imóveis, a proteção está disponível, mas depende de que alguém assuma a responsabilidade de garantir que ela chegue ao animal.

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