Projeto inovador prevê enchentes e apoia gestão hídrica em Mato Grosso do Sul
- Karita Emanuelle Ribeiro Sena
- 22 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Com drones, sensores e inteligência artificial, o HidroEX cria previsões que ajudam a Capital a evitar danos causados por chuvas intensas
Por Nathaly Santos

Campo Grande enfrenta todos os anos períodos de chuva que causam enxurradas, alagamentos e quedas de barrancos em diferentes regiões da cidade. Com chuvas cada vez mais intensas e uma ocupação urbana próxima a córregos, prever tais ocorrências tornou-se ainda mais urgente e relevante. É nesse cenário que surge o HidroEX, projeto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) voltado a antecipar enchentes e fortalecer a segurança hídrica no Estado.
O HidroEX – Extremos Hidrológicos em Múltiplas Escalas busca compreender e antecipar eventos extremos relacionados à água, como enchentes e enxurradas, a partir de simulações, coleta de dados nos córregos e no solo e uso de inteligência artificial. Selecionado pela Chamada Universal 2021 da Fundect, o estudo é coordenado pelo professor Paulo Tarso Sanches de Oliveira e integra uma série de pesquisas voltadas à segurança hídrica e ao enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas.
A proposta é analisar desde o comportamento da chuva até o percurso da água em áreas urbanas e rurais, criando modelos capazes de simular cenários futuros e identificar pontos vulneráveis. Segundo o professor Paulo Tarso, o HidroEx tenta entender os processos hidrológicos que acontecem na superfície terrestre e como eles podem gerar inundações, contribuindo para decisões mais precisas em situações de risco. “O foco está em melhorar a resiliência hídrica frente a extremos, observando o comportamento das bacias e avaliando como elas podem reagir a chuvas intensas”.

Os estudos conduzidos pelo laboratório também envolvem o uso de dados de precipitação, informações topográficas, imagens aéreas e análise computacional. Dessa forma, os pesquisadores conseguem prever o caminho da água, identificar áreas que podem alagar e propor ações preventivas às autoridades e órgãos responsáveis.
Monitoramento e tecnologia para prever enchentes
A equipe do HidroEx utiliza um drone de alta precisão para mapear áreas sensíveis ou de difícil acesso, acelerando o levantamento de informações essenciais para os modelos de previsão. O doutorando bolsista Leonardo Felipe da Silva, responsável pelo mapeamento do terreno, explica que o equipamento torna tudo mais rápido, seguro e preciso, e que os dados coletados permitem simular o escoamento da água após chuvas intensas. “Rodamos modelos que mostram para onde a água vai, com que velocidade e em quais regiões ela pode se acumular. Isso ajuda a preparar a cidade e orientar a Defesa Civil”, afirma.

Além das imagens aéreas, o laboratório opera uma rede de sensores instalados em córregos e áreas estratégicas da cidade. O pesquisador Thiago Oliveira, também bolsista do projeto, é o responsável por instalar e manter esse sistema em funcionamento, especialmente durante o período chuvoso. “Eu instalo os equipamentos, acompanho as medições e garanto que tudo esteja funcionando antes das cheias. Esses dados são fundamentais para alimentar os modelos de previsão”, explica. Ele também atua com ferramentas avançadas, como o modelo WRF-Hydro, usado internacionalmente para prever enchentes. “Estamos avaliando a eficácia dele em Campo Grande, com expectativa de chegar a um sistema de previsão em tempo real”.

As informações coletadas alimentam modelos maiores que utilizam inteligência artificial e análise hidrológica para gerar previsões de curto e médio prazo. Para os pesquisadores, a combinação entre monitoramento constante e modelagem computacional aumenta a precisão das simulações e favorece o planejamento urbano em áreas afetadas por inundações.
Financiamento e sustentabilidade
O HidroEX recebe cerca de R$ 1,2 milhão, valor destinado à compra de equipamentos, manutenção da infraestrutura, viagens de campo e pagamento de bolsas de pesquisa. Esse investimento, segundo o professor Paulo Tarso, é essencial para que o projeto avance. Ele destaca que o financiamento é extremamente importante. “Permite desenvolver soluções que têm impacto direto na vida das pessoas”.
Para estudantes e pesquisadores, as bolsas são decisivas para manter o ritmo das atividades. "A bolsa é imprescindível, porque permite nos manter na cidade e continuar a pesquisa”, afirma Leonardo. Thiago reforça que, sem esse suporte, a continuidade do estudo seria comprometida. “Se a pessoa perde a bolsa, o trabalho para. Tem custo para permanecer, e sem dedicação integral, não dá para desenvolver pesquisa de qualidade”.

A Fundect também reconhece a importância científica e social do projeto. O diretor-presidente da instituição, Márcio Pereira, afirma que iniciativas como essa fortalecem a segurança hídrica e a capacidade de resposta do Estado. “Quando aplicamos inteligência artificial para entender os extremos hidrológicos, abrimos caminho para decisões mais precisas. É assim que a ciência financiada pela Fundect transforma conhecimento em benefícios reais para a população e para o futuro do nosso território”.
O impacto do HidroEX em Campo Grande se reflete na capacidade de prever enchentes, identificar áreas vulneráveis e oferecer dados que orientam políticas públicas e ações de prevenção. Ao integrar tecnologia, análise científica e financiamento público, o projeto fortalece a tomada de decisão das autoridades, reduz riscos para a população e ajuda a preparar a cidade para enfrentar eventos climáticos cada vez mais extremos, contribuindo para uma gestão hídrica mais segura e eficiente.






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