Entre altos e baixos da mente
- Karita Emanuelle Ribeiro Sena
- há 1 dia
- 7 min de leitura
Os desafios de pessoas com transtorno bipolar, uma doença estigmatizada e mal compreendida pela sociedade
Ana Lorena Franco e Ayumi Chinem
Alterações de humor são comuns no dia a dia. Mas quando passam a afetar as relações cotidianas e a rotina, isso pode ser indício de que esses altos e baixos se tornaram uma montanha russa.
É justamente essa montanha-russa emocional que caracteriza o Transtorno Bipolar (TB). A condição se manifesta através de alterações drásticas de humor, que incluem desde episódios de euforia (mania ou hipomania) até a profunda tristeza e esgotamento característicos da depressão. Estima-se que esses altos e baixos afetem cerca de 140 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) .
A doença se manifesta em duas categorias principais: o tipo 1 e o tipo 2. Segundo a psiquiatra Anny Rozolem, o tipo 1 é facilmente notado por terceiros, já que a mania traz gastos excessivos, hipersexualidade e até mesmo coloca a vida do paciente em risco, podendo apresentar episódios de psicose. “O paciente se sente grandioso, que é um Deus ou mesmo com uma alucinação visual. Muitas vezes, é necessário internação para proteger esse paciente dos comportamentos dele, ou até mesmo proteger a reputação”.
Por dentro da montanha-russa
Esse foi o caso da jornalista Beatriz Magalhães, de 27 anos. Ainda na adolescência foi diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e passou anos acreditando que os sintomas de desatenção e esgotamento vinham dessa condição. Em determinado momento da vida, tarefas básicas do dia a dia se tornaram muito complexas.
Em alguns momentos, Beatriz conseguia fazer cinco esportes durante a semana, passar madrugadas acordada e buscar novos hobbies. Em outros, não tinha forças para nada. No trabalho, já não conseguia entregar o mínimo e, em casa, até levar seus cachorros para passear era um desafio. O labirinto que Beatriz se encontrava foi notado por sua chefe na época, que a orientou a procurar ajuda.

Segundo a psiquiatra Anny Rozolem o transtorno bipolar é uma condição cerebral multifatorial, que também envolve alterações cerebrais e desequilíbrios químicos. Além de fatores genéticos, o ambiente em que a pessoa cresceu pode ser um gatilho para desencadear a doença. “Alguns marcadores que já temos muita validação é abuso sexual na infância, abuso físico, sensação de abandono e relação parental de baixo vínculo afetivo. O paciente tem a percepção de ser pouco amado, pouco cuidado, o que gera um gatilho externo que, junto com a genética, pode abrir o quadro”.
A bipolaridade é uma condição séria, que pode colocar a vida de quem sofre do transtorno em risco. Segundo a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB) entre 30 e 50% dos portadores já tentaram suicídio ao menos uma vez e 15% se suicidaram efetivamente. Rozolem aponta que esse perigo aumenta principalmente em quadros depressivos mistos, quando a depressão vem acompanhada de agitação e impulsividade. "Neste caso, o transtorno depressivo não vem com tanta melancolia. O mais frequente é uma depressão irritadiça, com mais exposição à bebida, sexo desprotegido, dirigir em alta velocidade e mais disposição para elaborar um plano suicida".
Obter o diagnóstico é outro desafio. Isso porque, segundo a psiquiatra, o laudo pode levar até dez anos depois do primeiro episódio, o que torna o transtorno ainda mais perigoso, já que a depressão bipolar não deve ser tratada da mesma forma que a unipolar. "Se eu trato um portador de depressão bipolar como um deprimido unipolar usando antidepressivos, eu posso transformar uma depressão calma, sem tanto desespero, em uma depressão mista, com pensamento acelerado, na qual a gente tem o maior risco de óbito".
O perigo do diagnóstico errado
No caso de Beatriz, aquilo que parecia uma luz no fim do túnel, com a busca de ajuda médica, foi, na verdade, o começo de um colapso. A primeira consulta da jornalista foi em 2022, na rede privada e durou oito minutos, com perguntas curtas que resultaram em uma resposta equivocada e a prescrição de um antidepressivo.
"A médica me tratou como tendo apenas depressão ansiosa e me deu um remédio para depressão unipolar. Isso me tirou, de fato, do quadro depressivo, mas me jogou no quadro de mania e me impulsionou. Foi aí que eu fiz uma destruição na minha vida. Foi quando eu tive crises de psicose mesmo".
O medicamento inadequado levou a jornalista a situações constrangedoras devido a quadros de delírio, que resultaram em hipersexualização, além de ter desenvolvido compulsão, quando Beatriz comprou um apartamento e se endividou. Foi nesse momento que ficou claro para a jornalista que ela tinha o tipo 1 do Transtorno Bipolar.
“Qualquer pessoa que olhava para mim, eu entendia que me olhava num tom sexualizado. Um dia cheguei para minha chefe e falei ‘Se eu fosse você, tomava cuidado, porque o seu marido está me olhando’. Eu falei que eu ficava muito feliz que ela deixava o marido dela ficar perto de mim, porque geralmente as mulheres não deixam os maridos e namorados ficarem perto de mim. Eu estava delirando”.
O outro lado do transtorno
Diferente de um quadro mais evidente, no transtorno bipolar tipo 2, a mania vira hipomania, uma versão mais amena. Os episódios de hipomania podem durar em média uma semana e têm sintomas parecidos com os de pacientes com o tipo 1: aumento de energia, pensamento acelerado, impulsividade e irritabilidade - mas com menos riscos de prejuízos graves. “Pode ser uma coisa muito discreta e ter passado batido, às vezes até associado pela família e pelo próprio paciente, como um momento de muito bem-estar que ele sentia”, explica a psiquiatra Anny Rozolem.

A regra nesse tipo de bipolaridade são os períodos depressivos que podem se estender por meses, podendo levar ao abandono escolar, perda de emprego e rompimento de relacionamentos. “São depressões recorrentes e elas têm algumas características específicas, como ter iniciado o primeiro episódio muito cedo, às vezes na puberdade, adolescência, mas em geral, antes dos 25 anos. É uma depressão que, inicialmente, até responde bem a um antidepressivo comum, mas depois isso perde a força”.
Lorena Franco, de 21 anos, teve seu primeiro episódio depressivo por volta dos 13 anos de idade e, desde então, o quadro virou parte da rotina. Sua mãe percebeu a mudança no comportamento da filha, antes agitada e extrovertida, e a levou para terapia.
O acompanhamento psicológico deixou de ser uma opção, já que Lorena nunca se sentiu acolhida e, para ela, as coisas não mudavam: os dias muito bons se alternavam com meses sem forças para pisar fora de casa. A jovem foi pela primeira vez ao psiquiatra com 17 anos. O profissional prescreveu um antidepressivo que a ajudou nos primeiros meses, mas na sequência, mesmo após aumentos na dosagem, o remédio perdeu efeito.
“A depressão voltou e a cada término de amizades ou relacionamentos românticos, crise financeira e momentos decisivos, meu emocional ficava cada vez pior e os episódios depressivos também”, conta Lorena.
Com o início da vida universitária, Lorena mudou de cidade e sentiu que deveria dar uma chance à terapia que a faculdade oferecia gratuitamente aos alunos. Para ela,dessa vez foi diferente. As sessões eram limitadas - até três por paciente -, mas no caso dela se estenderam.
“A gente pode marcar uma sessão na semana que vem?”, “Nos vemos na próxima semana”, era o que a psicóloga falava, talvez por perceber a necessidade de Lorena. As semanas viraram meses. Seis meses de terapia. Após um episódio depressivo mais grave, o diagnóstico veio à tona: transtorno bipolar tipo 2.
Uma drama pessoal
Foi aí que entendi. Isso faz três anos.
Das 140 milhões de pessoas que sofrem de transtorno de bipolaridade, eu, Ana Lorena Franco, uma das autoras dessa reportagem, estou entre elas. Então este texto também é sobre mim. Sobre a Lorena que convive com o transtorno bipolar, mas que é alguém, uma amiga, filha, estudante e que encontrou no jornalismo uma forma de dar voz ao que vive e ao que muitos ainda enfrentam sozinhos.
O início foi desesperador. Por ser um transtorno com baixa incidência, a bipolaridade é envolvida em muitos estigmas que, de certa forma, eram reproduzidos na minha mente. Depois do baque, comecei a pesquisar, ler artigos e assistir vídeos de depoimentos de pessoas com transtorno bipolar, o que foi esclarecedor, pois gerou identificação imediata.
Para Beatriz, o diagnóstico não foi um peso nem mesmo no início. Foi a oportunidade de compreensão de que sua forma de ver e sentir não estavam erradas. “Na verdade, esse diagnóstico me aliviou muito, porque ele me explicou muitas coisas. Eu me sentia uma pessoa instável, desequilibrada. Comecei a colocar a culpa em outras situações ‘É falta de atenção. Eu só preciso me atentar mais. É excesso de celular, é excesso de trabalho’’.
Tratamento e descobertas
Após uma sequência de frustrações e pular de consultório em consultório, Beatriz finalmente encontrou estabilidade ao ser atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A jornalista destaca a qualidade do serviço oferecido pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). "Eu não vou mais na rede particular, vou no SUS e defendo o CAPS de todas as formas. Já paguei R$ 800 numa consulta que não é metade do atendimento que a gente tem no CAPS. É maravilhoso".
No meu caso, o atendimento psicológico oferecido pela universidade foi essencial, não apenas para descobrir o motivo da minha tristeza e confiança súbitas, mas para me cuidar, já que o tratamento do transtorno bipolar é uma jornada de autoconhecimento e constância.
“O tratamento farmacológico diminui a quantidade de episódios de crise. Mas não tem terapia e remédio que mantenha a estabilidade com o paciente indo dormir de madrugada, usando drogas e consumindo álcool. Então, os hábitos de vida são extremamente importantes para manter o cérebro saudável”, explica a psiquiatra.
A jornada de descoberta e a vivência de pessoas com transtorno bipolar são diversas e podem variar nos sintomas, forma de diagnóstico e tratamento em cada experiência. Mas a identificação com outras pessoas que vivem com o transtorno e o alívio de saber que você não é um patinho feio é um dos pontos de convergência.
“Para mim, não é um problema falar. Se você é hipertenso, você conta. Se você tem diabetes, você conta. Qual é o problema? É muito importante quando a gente tem outras pessoas para se identificar, porque senão você acha que o problema é você, e não é. Eu não me vejo como uma pessoa transtornada, mas eu me vejo como uma pessoa com um transtorno”, relata Beatriz.
No meu caso, falar sobre a bipolaridade é além de mostrar a dificuldade do transtorno. É mostrar que assim como outros portadores, eu sou alguém além dos altos e baixos vividos por essa montanha-russa. Sou uma amiga, filha e estudante que encontrou no jornalismo uma forma de dar voz ao que vive e ao que muitos ainda enfrentam sozinhos.
Desmistificar a bipolaridade é abrir espaço para que o diagnóstico chegue mais cedo e o cuidado seja mais completo. Não se trata apenas de estabilizadores de humor, mas também de acolhimento, compreensão e da coragem de enfrentar barreiras, mesmo quando a vida oscila.
Caso você suspeite que sofra de transtorno bipolar ou outra condição de saúde mental que necessite de ajuda, busque ajuda psiquiátrica.




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