Profissões que não se dobram
- lauras05
- 16 de set.
- 3 min de leitura
A luta por manter vivo o trabalho manual
Texto e imagens: Paloma Rainho Maldonado
Em um mundo cada vez mais acelerado, onde a industrialização e a tecnologia substituem mãos humanas com eficiência e baixo custo, alguns ofícios tradicionais resistem. Entre tesouras, martelos e linhas, alfaiates, ferreiros e sapateiros mantêm vivas profissões que moldaram gerações, mas hoje correm risco de desaparecer.
Conversamos com três profissionais que há décadas dedicam sua vida ao trabalho artesanal, revelando os desafios, as transformações e a esperança de que suas histórias não sejam apenas lembranças no futuro.
O alfaiate que veste gerações
Na loja Mr. Suits, Valtrudes Ademar é sinônimo de tradição. Há 44 anos como alfaiate, ele acompanhou de perto a transformação da moda.

“O que mais impactou no meu trabalho foi a evolução da indústria, por conta do lançamento de roupas de mais fácil acesso”, conta. O fast fashion e as roupas prontas poderiam ter sepultado o ofício, mas Valtrudes revela que ainda há procura: “Temos uma alta demanda aqui na loja. A maioria que busca nossos serviços são advogados, doutores, médicos.”
Para ele, a perpetuação do ofício depende da transmissão de conhecimento. “Nós profissionais temos que continuar ensinando. Eu mesmo ensino os meus filhos para que um dia não faltem alfaiates. Todas as roupas que eu faço têm a minha marca, isso é o principal. Se não ensinarmos, não tem quem possa continuar depois que formos embora.”
O ferreiro em tempos de máquinas
Na LA Marcas, Amilson mantém aceso o fogo do ofício de ferreiro. Enquanto máquinas modernas produzem em série, ele segue com martelo e bigorna.
“Geralmente fazendeiros ou pecuaristas procuram meu trabalho para fazer marcas de gado. No caso do meu ofício, ele é totalmente artesanal, então não foi muito afetado pela industrialização”, explica.

Questionado sobre a possibilidade de adaptar seu trabalho para a arte ou a decoração, Amilson é direto: “Nunca pensei em fazer algo para outro setor.” A incerteza, no entanto, o acompanha: “O futuro da profissão é incerto, porque pode realmente acabar. Talvez máquinas façam o que eu faço atualmente. A procura é muito pouca por conta do baixo salário.”

O sapateiro que desafia o tempo
Na Sapataria Leão, Tiago Ocampos começou cedo no ofício: aos 12 anos já ajudava na rotina da sapataria. Hoje, aos 37, mantém viva a prática artesanal em meio à concorrência das fábricas.

“A maior dificuldade é o custo da matéria-prima de qualidade, principalmente o couro. Hoje o mercado usa muitos materiais descartáveis que duram no máximo três anos. Já um calçado artesanal pode durar mais de 20 anos se tiver cuidado”.
Apesar da pressão do mercado externo e do baixo custo dos industrializados, ele enxerga um público fiel: “As pessoas que preferem qualidade valorizam sim”.
Diferente das fábricas, sua produção é 100% manual: “Tudo é feito à mão — desenho, corte, acabamento. Não usamos máquinas que repetem sempre a mesma coisa.”

Para ele, a sobrevivência do ofício está na educação do consumidor: “É preciso ensinar para os clientes o valor da mão de obra, do couro, da matéria-prima. Mostrar a diferença entre um calçado que dura três anos e outro que pode durar a vida inteira”.
O fio comum entre eles
Entre linhas, fogo e couro, esses profissionais revelam um mesmo dilema: como manter vivo um trabalho artesanal em meio a um mundo imediatista? Para eles, o futuro depende da valorização do tempo, da tradição e da transmissão do conhecimento.
Enquanto houver quem reconheça que algumas peças carregam mais do que utilidade — carregam história —, alfaiates, ferreiros e sapateiros seguirão resistindo ao esquecimento.






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