top of page

Por dentro do CAPS

  • lauras05
  • 19 de set.
  • 7 min de leitura

Os Centros de Atenção Psicossocial pelo olhar de quem está na sua rotina

Texto: Hyan Martins e Juliana Ramos;

Imagens: Hyan Martins



Os murais trazem artes realizadas pelos pacientes como atividade terapêutica
Os murais trazem artes realizadas pelos pacientes como atividade terapêutica

 “Quando eu fui assumir o cargo, o médico disse que eu não poderia, porque tomava remédio controlado. Mas eu lembrei da lei de inclusão social. Consegui um laudo com meu médico e assumi. Faz 22 anos que sou concursado”, disse orgulhoso Marcos Ortiz, de 54 anos. Ele frequenta o Centro de Atenção Psicossocial CAPS III Margarida “Marley Maciel Elias Massulo” há 19 anos.

 

Pai de cinco filhos, ele se orgulha dos mais novos: “Um passou em primeiro lugar em Medicina Veterinária na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e o outro em Letras com habilitação em Espanhol. Ele também fala dos sonhos interrompidos e da vontade de recomeçar. “Passei quatro vezes no Enem para a UFMS. Comecei a universidade quatro vezes, mas eu reprovava por falta porque tinha que levar minha ex-esposa ao médico. Esse ano já fiz minha inscrição para o Enem e vou passar”.


De forma contida, Marcos se embala ao som da canção “Dias Melhores” do Jota Quest. Naquele momento, cerca de dez pessoas de variadas idades cantavam posicionadas em duas fileiras, era o coral do CAPS ensaiando para futuras apresentações. “Vamos dar o recado de vida, de medicação, que dá tudo certo e vocês são o exemplo”, dizia a assistente social Inara Cabral.

 

No fim de mais uma música, “Xote da Alegria”, um outro paciente exclama: “Meu Deus, eu superei a mim mesmo!”. Já Marcos, que adora ouvir música e cantar, após o ensaio, disse que cantar ajuda a ter autoestima, mostrando do que ele é capaz.

 É justamente esse o objetivo do coral, assim como de outras oficinas que funcionam nos Centros de Atenção Psicossocial:  contribuir para o desenvolvimento e tratamento. Os ensaios funcionam em alguns dias da semana, quando as pessoas vão até o CAPS para esse momento de descontração, mostrando que os projetos vão além da terapia e da medicação.

 

Com emoção e uma voz determinada e confiante, Marcos rebate o preconceito, mostrando em seu olhar, que já ouviu muitas opiniões equivocadas. “Tem muita gente que acha que aqui é até um sanatório e não é. Até o abrigamento aqui, não tem nada a ver com o tratamento de hospital psiquiátrico. É totalmente diferente, nós temos as terapias, temos o coral, a gente pode assistir televisão, jogar um dominó, pode jogar uma dama, a hora que quiser. Sempre podemos conversar com os outros pacientes.

 

Ele conta que antes da criação dos CAPS, já havia sido internado três vezes, mas após frequentar a instituição, nunca mais precisou. Quando diz que o sistema de abrigamento é diferente de outros lugares, se refere ao fato de que os Centros de Atenção Psicossocial funcionam na modalidade portas abertas, recebendo todas as pessoas sem agendamento prévio e sem internação. Assim, pessoas em momentos de crise podem passar um período de tempo no lugar para garantir um melhor tratamento, mas sem perder a liberdade e protagonismo.

 

“O CAPS é importante porque eles incentivam a gente a não parar o tratamento, não parar principalmente a medicação, o que é fundamental, porque às vezes a pessoa melhora, acha que já sarou, e quer abandonar o tratamento”, explica Marcos.

 

Ele deseja ser graduado em Matemática. “Eu não penso em dar aula, é que o meu sonho é ter um curso superior, um diploma para eu provar para a população que não somos loucos, somos normais como qualquer um”, disse entre lágrimas que demonstram que os transtornos psiquiátricos vão além da saúde mental, sendo uma luta diária contra os preconceitos da sociedade.

 

Acolhimento, desafios e autonomia


         Oficinas como o coral são ferramentas que auxiliam a saúde mental de forma leve e divertida
         Oficinas como o coral são ferramentas que auxiliam a saúde mental de forma leve e divertida

Logo na entrada, antes de chegar ao seu consultório, o que chama a atenção é a simplicidade da recepção. Pequena, ela dá acesso ao prédio marcado pelo tempo, a área externa do CAPS III Margarida Marley Maciel Elias Massulo não possui muros, mas tem cercas já bem decadentes. O espaço interno não conta com corredores largos nem ambientes padronizados, cada sala parece contar uma história própria. Em alguns pontos, o piso é verde, chamativo, em outros, mandalas estampadas, cada parte do chão de um jeito, como se fossem mosaicos.

 

O calor é constante. O prédio se alterna entre espaços mais frescos e outros abafados, com uma ventilação que não acompanha a rotina dos pacientes e profissionais. Logo após a recepção, o corredor leva à enfermaria e aos quartos, que são divididos em dois: um destinado aos homens e outro às mulheres. As paredes em tom creme carregam o peso dos anos, assim como as mesas enferrujadas e as cadeiras desgastadas - essa realidade é agravada pelo pouco repasse de verbas do poder público, que impede melhorias no prédio e mantém as marcas do abandono. 

 

No mesmo corredor,  é preciso ir até uma entrada que leva para uma espécie de pátio, com algumas cadeiras contornando o espaço onde os frequentadores convivem. Esse lugar de convivência faz parte do tratamento dos pacientes, indo além de consultas e medicação, é uma ferramenta que auxilia no desenvolvimento e acompanhamento médico. O que mais chama atenção no lugar, é o mural com várias artes realizadas por pacientes, outro recurso terapêutico, que colore o local.

 

Ao lado das cadeiras, está o destino do psicólogo Márcio Luiz de Souza Godoy, pelo menos em parte do seu tempo. Com uma camisa xadrez azul escura, branca e cinza, óculos retangulares e um sorriso animado e receptivo, é ali que o profissional atende diversas pessoas, dividindo seu tempo com reuniões com a equipe multidisciplinar, visitas domiciliares, assembleias e orientações.

 

Suas vivências em grandes empresas, trabalhando com pessoas em situação de rua e no CAPS têm algo em comum: a luta pela efetivação dos direitos humanos e o trabalho em prol da saúde mental das pessoas vulneráveis.

 

Voltados a pessoas em sofrimento ou transtorno mental grave, como esquizofrenia e transtorno afetivo bipolar, o Centro de Atenção Psicossocial III atua numa modalidade de território, indo além da medicação. O tratamento é realizado através de  projetos terapêuticos que consideram a família, a comunidade e o empoderamento do paciente como cidadão, valorizando a sua autonomia e relação com a sociedade.

 

Para o psicólogo Márcio Godoy, a importância dessa instituição se concentra nessa modalidade e na sua diferenciação de clínicas particulares, pois a preocupação para com os beneficiários vai além do espaço clínico. Os profissionais fazem visitas em casas para dialogar com a família e receber notícias dos pacientes quando não retornam à instituição, além de irem a postos de saúde, por exemplo, para ter contato com a equipe médica.

 

“Se você pensasse em um indivíduo ali isolado, seriam estratégias mais limitadas, individualizadas. Pensar a partir da  lógica dos territórios possibilita um corpo de estratégias infinitas, essa é a importância dos CAPS. Não nos colocamos numa posição passiva, de apenas receptores. Além disso, em tese, ele se direciona para o protagonismo desse sujeito que está utilizando o serviço”, explicou o profissional.

 

Em mais um dia da sua rotina diversa voltada aos cuidados com a saúde mental, Márcio Godoy lembra de sua paciente Natália. Tinha crises graves, era difícil se acalmar e isso colocava em risco a sua vida. O profissional era mais do que seu psicólogo, era seu técnico de referência, uma função que existe dentro de todos os CAPS. Qualquer pessoa que passe por um atendimento é recebida por uma equipe multidisciplinar com enfermeiros, técnicos de enfermagem, farmacêuticos, psicólogos, assistentes sociais, médicos clínicos e psiquiatras.

 

Ao mesmo tempo que esses profissionais têm atribuições específicas, em boa parte do tempo se ocupam da mesma função, assim todos realizam acolhimentos e são responsáveis pela criação de projetos terapêuticos, ainda que não recebam curso preparatório para isso. O encarregado pelo acolhimento do paciente é o técnico de referência dele, é quem irá coordenar o tratamento, dialogando com todos que também fazem parte desse processo e com familiares, é quem mais convive e é o mais vinculado com a pessoa em atendimento.

 

Foi assim que Márcio Godoy descobriu que Natália gostava das músicas do Odair José. Sendo sua referenciada, ele observou que ela murmurava uma melodia, mas a sua dicção era de difícil entendimento. Aos poucos descobriu quais eram as canções, pesquisou seus gostos a fundo e passou a usar a música como ferramenta terapêutica. A partir disso, sempre que ela entrava em crise, ele cantava: “Cadê você”, a paciente se acalmava, o abraçava e chorava.

 

Não precisar conter um paciente de forma mecânica, auxiliar na sua autonomia e manter um funcionamento de portas abertas são situações que funcionam devido ao método de técnicos de referências, que dedicam tempo além da terapia, estabelecendo vínculos e tratamentos personalizados.

O residente passará um ano no CAPS III e depois será transferido por seis meses para o CAPS Álcool e Drogas, seguido do Infanto-Juvenil para completar a experiência.
O residente passará um ano no CAPS III e depois será transferido por seis meses para o CAPS Álcool e Drogas, seguido do Infanto-Juvenil para completar a experiência.

Ele lembra de um atendimento marcante: “Era uma jovem, Letícia, mãe solo de três filhos. Buscava ajuda no CAPS, mas na verdade, não era o perfil adequado para acompanhamento contínuo nesse serviço. A instituição existe para atender pessoas em sofrimento mental intenso e persistente, geralmente casos mais graves, que fazem parte do campo da psiquiatria”. No caso dela, o que apresentava era uma crise de ansiedade, um sofrimento legítimo, mas que deveria ser acompanhado pela Unidade Básica de Saúde ou no ambulatório de saúde mental, serviço também oferecido pelo SUS.


Mesmo que outras áreas sejam responsáveis por esse tipo de situação, com atendimentos e abordagens específicas, qualquer um que chegue ao CAPS passa pelo acolhimento, momento em que a pessoa conversa com algum profissional da equipe multidisciplinar para entender a situação e definir os próximos passos.

Foi nesta hora  que a sua formação e dedicação à assistência social entrou em ação: reconhecendo a situação da jovem que acolhia, Lucas percebeu a complexidade em que ela estava inserida. Compreendendo que precisava de atendimento imediato, tomou as medidas necessárias. “Não é perfil CAPS, mas também não podemos negar o atendimento. Se não compreendermos isso, culpabilizamos a pessoa. Vamos entender a questão social dela, porque isso também gera sofrimento psíquico”.


Para Lucas, o CAPS representa uma mudança histórica: “antes, as pessoas eram esquecidas em manicômios. Elas perdiam sua identidade, deixavam de viver o mundo. O CAPS muda tudo isso, quebra esse paradigma e tenta humanizar. Como é o caso do Seu José que não conseguia  nem pegar ônibus sozinho e, depois de meses, passou a cuidar de si mesmo. Isso é transformador.”


Um Centro de Atenção Psicossocial não tira a humanidade e a autonomia mesmo em uma sociedade que não possui um funcionamento para pessoas com transtornos psiquiátricos. “Ele precisa desbravar o mundo, trabalhar, sobreviver,  igual todas as pessoas, com um mísero salário vendendo a sua força de trabalho, esse é o sistema.  A sociedade não é construída para eles, não existe espaço só para eles, tampouco para pessoas com deficiência, por exemplo. O CAPS, nessa perspectiva de direito, traz essa autonomia para esse paciente, construímos isso com ele”, finaliza o residente.

Comentários


  • alt.text.label.Facebook
  • alt.text.label.Instagram

©2023 por Textão Jornalístico. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page