O pêndulo da educação
- CAMILA RODRIGUES CUNHA
- há 4 dias
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Quando a educação vive longe, alunos paulistas buscam oportunidades melhores em escolas além da divisa.
— Camila Rodrigues, João Antonio Ramos, Juliana Fernandes e Matheus Senna
Guilherme Costa Tommaselli é professor do Instituto Federal (IFMS) de Três Lagoas há mais de 15 anos. Nesse meio tempo, viu um certo contingente de alunos aumentar e diminuir, mas sempre presente. Alunos que acordam mais cedo que outros e atravessam mais de 30 quilômetros até chegar ao local. Alunos que atravessam uma divisa, são paulistas, vivem no município de Castilho (SP) e regiões próximas, mas, para conseguirem acesso a um Ensino Médio de qualidade, vem até o Mato Grosso do Sul. “É o fato de que nessas escolas, as cidades não têm uma escola de ensino federal e é nesse caso que recebemos alunos de fora, porque é uma oportunidade de educação de nível médio, que eles não vão ter numa escola estadual comum”. Oportunidade se torna uma palavra de grande importância para os jovens dessas regiões, que almejam um ensino de qualidade.
Estudantes também notam as dificuldades de completar o ensino básico na cidade paulistana . Buscam na rede privada e em outras cidades oportunidades de fechamento da educação elementar. Pedro, nome fictício de aluno que prefere se manter anônimo por medo de represálias, reclamou do horário das aulas e do espaço inadequado da única escola de Ensino Médio na cidade. “O ensino aqui no Armel Miranda (escola estadual) era muito defasado. O ambiente era muito ruim, pessoas fumando, varzeando, era um ambiente hostil“. Tendo uma experiência bem mais positiva em uma escola privada na cidade de Andradina.
Outra aluna, que também prefere se manter anônima por receio da exposição, falou sobre como a má fama da instituição a levou a estudar em Três Lagoas, o que impactou negativamente no seu emocional, além disso, atravessando o dia com apenas duas refeições, “preferia dormir a almoçar”.

Dificuldades além do tempo
Angela Maria Bregolato é funcionária pública da Secretaria de Estado da Educação do Mato Grosso do Sul e tem 57 anos. Nascida em Borá, cidade no interior de São Paulo e anterior detentora do título de menor cidade do país, também enfrentou grandes distâncias para concluir sua educação básica. “Tinha que ir para Paraguaçu fazer do quinto ao oitavo ano, e também o ensino médio”, relembra. “Foi absoluta falta de opção”. Angela dava aulas de manhã em Assis, fazia faculdade de tarde e voltava no fim da noite para casa, em Paraguaçu. Uma juventude baseada em três momentos, em três cidades.
O problema da migração pendular de alunos entre cidades e estados, atravessa décadas. A situação faz parte do cotidiano de tais regiões, são ritos comuns entre quem almeja uma educação de qualidade. Existem sistemas de apoio e soluções ligadas ao poder público. A prefeitura de Castilho, por exemplo, possui um subsídio de 50% do valor do transporte até Três Lagoas para os estudantes que realizam a travessia.
“A prefeitura do município paga metade do transporte, então os próprios municípios se organizam e enviam os estudantes para Três Lagoas para que eles cursem aqui”, diz Muriel Teixeira, técnico do laboratório de informática do IFMS responsável pela comunicação externa do campus de Três Lagoas. Ainda é citado um “aumento expressivo” dos alunos paulistanos na região, que passa por um crescimento econômico impulsionado pela industrialização, agora considerado um polo industrial da celulose.
Segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o estado de São Paulo é superior à do Mato Grosso do Sul em 0,5 pontos percentuais (4,5 e 4,0, respectivamente, dados sobre o Ensino Médio em 2023. Todos os estados se situam abaixo dos 5 pontos, em uma medição que vai até 10. O descaso com a educação pública, em especial aquela relacionada ao Ensino Médio, faz parte da realidade do país inteiro, mas parece afetar especialmente cidades interioranas, agravando a má qualidade do ensino.
A falta de investimentos e a aplicação de um modelo defasado de educação é razão de intensas críticas, sempre há a “questão da educação” para ser resolvida na política, com soluções de lucidez variada, flutuando num mar de hipóteses. Borá tem apenas 907 habitantes, Castilho tem mais de vinte mil, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o estado deveria garantir o ensino básico independente do número de habitantes. A população busca maneiras de lidar com isso, como escolas privadas e cursos paralelos. Há um mercado, a mera possibilidade do desenvolvimento intelectual, então, se torna luxo para alguns e jornada exaustiva para outros.
Angela há muito enfrentou esses estorvos, e, como trabalhadora da educação, também presenciou estudantes em condições parecidas com as suas. Ela entende que a situação é precária e que soluções chegam como contornos, por vezes momentâneos, mas também vê esperança e valentia naqueles que atravessam pelo desafio. “Vai, vai que dá. É cansativo e desafiador mas se é a única forma, persista
que dá certo”







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