O lugar onde todo mundo já passou e hoje vive à espera
- CAMILA RODRIGUES CUNHA
- 12 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Antiga rodoviária, espaço em que histórias se cruzam e silêncios se instalam aguardando uma revitalização que nunca chega
Anny Cardoso e Nicolly Silva
Na década de 1970, Campo Grande assistia ao nascimento de um novo marco urbano. Erguido no coração do bairro Amambai, o Terminal Rodoviário Heitor Eduardo Laburu surgia como símbolo de modernidade, com plataformas cheias, ônibus chegando e saindo sem descanso, viajantes desembarcando com malas, expectativas e histórias por começar. O prédio impressionava com duas salas de cinema, posto da Polícia Militar, barbearia, cabeleireira, lanchonetes, ponto de táxi e movimento contínuo. Era mais que um terminal, era um centro vivo.
Hoje, a realidade é outra. Desde 2009, o prédio de paredes laranjas antes tomado pelo barulho de malas e vozes, começou a se esvaziar lentamente. A construção do novo terminal deslocou o fluxo de pessoas e, sem o vaivém que sustentava comerciantes e serviços, iniciou-se uma desativação progressiva. Lojas baixaram as portas, infiltrações avançaram, a estrutura cedeu sem manutenção e o abandono se tornou regra.
Em 2014, porém, um breve sopro de esperança apareceu. Eventos institucionais e movimentos artísticos voltaram a ocupar a região, reacendendo por instantes a sensação de que o bairro poderia renascer. Para quem viveu o auge, a fagulha foi suficiente para reanimar lembranças profundas. As paredes pareciam recuperar a cor laranja que marcou uma geração, e as plataformas, mesmo vazias, ainda guardavam ecos de um tempo vibrante.
A memória de quem viveu o auge
Entre memórias que ressurgiram, por alguns instantes, a jornalista Jacqueline Bezerra Lopes de 51 anos voltava a adolescência outra vez. “Era o nosso shopping. Tinha o cine Plaza. Os filmes ‘Os Trapalhões’ e ‘La Bamba’ eu assisti ali com minha mãe, que era professora, e meu tio, que era servidor público. Eu também ia lá pra namorar. O cinema sempre foi ponto de encontro, escondido dos nossos pais”, relembra.
Para quem só conhece a rodoviária pelo cenário atual, é difícil imaginar que aquele prédio já foi um dos centros mais vibrantes da vida urbana. As paredes laranjas hoje marcadas pelo tempo ainda revelam, sob o descascado, a força de tudo o que já foram. No chão de pedra, as marcas dos pneus dos ônibus permanecem como uma tatuagem antiga, registrando silenciosamente décadas de partidas e chegadas.
Entre tantas histórias que passaram, algumas permanecem vivas como se tivessem acontecido ontem. “Em 1995, eu e minhas duas amigas, todas com nossos 20 aninhos, saímos dali para uma viagem de ônibus para o Rio de Janeiro. A mãe de uma delas nunca tinha se separado da filha, dona Cida. Eu lembro até hoje da cena nós todas já dentro do ônibus e, de longe, ela acenando aos prantos. Minha amiga também chorou. E hoje, essa mãe não está mais entre nós”, lembra a jornalista, sorrindo do passado.
Os tapumes que hoje cercam a rodoviária levantam uma muralha que tenta esconder o que acontece lá dentro trazendo o contraste entre memória e realidade. O cheiro de urina é intenso e se mistura ao pó que o vento carrega. As placas que ainda permanecem presas ao chão estão descascadas, e o vermelho da antiga fachada virou apenas um rastro fosco de tinta seca, que se solta um pouco mais a cada nascer do sol e piora quando anoitece. Pelo chão, a poeira acumulada forma uma espécie de película que cobre tudo, enquanto um silêncio monstruoso se espalha pelos corredores vazios, ocupando os espaços onde antes ecoavam vozes, rodas, passos e anúncios de partidas.
O pastor Milton Marques, 55 anos, ainda guarda uma ligação afetiva com o lugar. “Fui um dos caras que correu naquela rodoviária. O cara que vendia relógio se juntava ao que vendia correntes, as famílias desembarcando, as crianças espantadas ao chegar perto da capital e ver tudo aquilo. Acho que isso era muito bom, muito gostoso”, conta.
Com lágrimas nos olhos, ele tenta organizar as memórias que ainda o atravessam. Fala da imagem viva que aquele lugar carregava e da sensação de impotência ao ver o que restou. A percepção de que o centro está morrendo, criando novas vítimas e revelando camadas de descaso, pesa na voz que agora se embarga. Tentando resumir o que significou a Rodoviária Velha, Milton respira fundo antes de dizer: “Era uma imagem gostosa da época em que funcionava um coração pulsante.”
Da revitalização ao retrocesso
Sem políticas públicas de preservação e alvo de disputas administrativas que nunca saíram do papel, o antigo terminal transformou-se num espaço suspenso, não revitalizado, não ocupado, não entregue a um novo destino. Entre promessas quebradas e reformas anunciadas e nunca executadas, ela passou a exibir na fachada o retrato da própria negligência.
A obra iniciada em 2022, com prazo de 360 dias após a parceria entre Estado e Município, não se tornou solução. Pelo contrário, virou motivo de dúvida. Documentos do Portal da Transparência mostram que o contrato nº 236/2022, firmado com a NXS Engenharia, começou em R$16,5 milhões e já chega a R$24,1 milhões após sucessivos aditivos e mudanças no escopo. A Secretaria Municipal de Infraestrutura atribui os atrasos a reprogramações técnicas, ajustes na fundação e revisões de projeto. Mas nenhuma justificativa diminui a sensação de estagnação que paira sobre um dos edifícios mais simbólicos da cidade. A entrega, antes prevista para junho de 2023, foi adiada para o fim de 2024, depois para junho de 2025 e agora aparece apenas como “até o fim de 2025”, mais uma promessa que não garante nada.
O arquiteto e professor aposentado da UFMS, Ângelo Arruda, 68 anos, lembra que a antiga rodoviária é mais que um prédio esquecido: é um marco do modernismo que ajudou a moldar Campo Grande. Nos anos 1960, quando a cidade tinha pouco mais de 60 a 70 mil habitantes, o Terminal Heitor Eduardo Laburu era um empreendimento ousado, vãos amplos, concreto aparente, estrutura azulada, circulação generosa, projetado por arquitetos paulistas. “Quem desembarcava ali tinha a sensação de entrar no coração de uma cidade que se consolidava”, afirma.
Hoje, ele acredita que o desafio não é inventar usos aleatórios, mas compreender o edifício. “O prédio tem rampas boas, circulações amplas, dois cinemas enormes e uma estrutura de concreto extremamente eficiente. O problema nunca foi o espaço; é achar um uso compatível com o entorno”. Para ele, qualquer revitalização precisa alcançar a primeira e a segunda quadra ao redor, a Barão, a Maria Constança, a Morada dos Baís e o córrego Segredo. “Não adianta colocar ali uma atividade econômica que não conversa com o que está em volta. Por isso tantas ideias fracassaram”.
Arruda lembra que quando um prédio assim fica sem uso, ele não perde só função, perde memória, vitalidade, história e até integridade física. A Rodoviária Velha, segue o mesmo caminho: parada no tempo, à mercê do abandono, aguardando que alguém devolva a ela o papel de referência que um dia teve.
Enquanto isso, o entorno se transforma. Moradores em situação de rua se abrigam nas laterais com panos, colchões e improvisos, redefinindo silenciosamente o uso do espaço. O que antes despertava ansiedade boa, encontros e expectativas de chegada e partida, hoje provoca medo e afastamento. É o que sente o servidor público Wilson José Cardoso, 50 anos. “Nos dias de hoje, sinto até uma certa tristeza ao vê-la com tantos tapumes e com tantas pessoas em situação de rua no entorno, o que traz um sentimento de muita insegurança e medo”.
O tempo passou, e muitos dos que circularam pela Rodoviária Velha ainda recordam a última vez em que estiveram ali sem imaginar que seria, de fato, a última. Lembram do cheiro das lanchonetes, do salão de beleza, da buzina dos ônibus e da movimentação incessante de ambulantes, guardas e passageiros. Entre essas memórias está a de Jacqueline, que revive um fragmento de 2007. “Fui correndo com minha filha pequenininha pegar o ônibus para Bonito. Lembro que cheguei esbaforida com ela e a mochila, e perdemos o busão. Pegamos outro porque toda hora tinha ônibus. Foi meu momento de despedida daquele lugar sem que eu soubesse que seria´´.
Entre memórias que resistem e um presente que pesa, a Rodoviária Velha permanece ali imóvel, cercada, silenciosa esperando que alguém decida se ela ainda tem futuro, ou se será lembrada apenas pelo que já foi um dia.


