Música e emoção - Mato Grosso do Sul revive os 60 anos da Jovem Guarda
- lauras05
- 15 de set
- 7 min de leitura
Shows com artistas do passado e releituras por jovens revelações relembrar um dos principais movimentos artísticos brasileiros
Guilherme Willian

Nos anos 1960, a televisão brasileira começava a se consolidar como a grande vitrine da música popular. A TV Record, canal 7 de São Paulo, criada pelo empresário Paulo Machado de Carvalho, viveu seu auge justamente nesse período, tornando-se referência em musicais e festivais. Enquanto emissoras concorrentes concentravam esforços em jornalismo e novelas, a Record investia pesado em programas musicais, tradição herdada da Rádio Record, também ligada à família Machado de Carvalho.
Esse investimento logo se refletiu em produções de peso. No horário nobre, a emissora exibia três atrações que marcaram época: Astros do Disco, dedicado às canções de maior sucesso nas paradas; O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues e voltado à moderna música popular brasileira; e Bossaudade, que homenageava a chamada “velha guarda”, com nomes como Elizeth Cardoso e Cyro Monteiro. Faltava, porém, um espaço específico para a juventude que vibrava ao som do rock’n’roll e do chamado iê-iê-iê, um movimento que crescia inspirado nos Beatles e em outros grupos estrangeiros.
O acaso acelerou esse processo em julho de 1965. A Record perdeu, de uma só vez, sua principal atração das tardes de domingo: as transmissões ao vivo do Campeonato Paulista de Futebol. Pressionados pela queda de público nos estádios, os grandes clubes paulistas conseguiram na Justiça suspender a lei municipal que permitia exibir os jogos sem pagamento de direitos de imagem. Assim, clássicos como Corinthians x São Paulo deixaram de passar na televisão, o que criou um enorme vazio na grade da emissora.
Sem futebol, o público migrou para os canais concorrentes, e a Record precisou agir rápido. Foi então que Paulinho Machado de Carvalho decidiu apostar em um programa jovem, feito nos moldes de O Fino da Bossa: dois apresentadores carismáticos, um homem e uma mulher, liderando um grande show musical ao vivo. A diferença é que, dessa vez, o foco seria totalmente voltado ao público adolescente e aos novos ídolos da música pop brasileira.
Jovem Guarda
A escolha dos nomes não foi simples. Celly Campello, estrela de sucessos versionados por Fred Jorge como “Estúpido Cupido ” e “Banho de Lua” chegou a ser cogitada, mas recusou o convite para voltar aos palcos. Sérgio Murilo, Demétrius e Ronnie Cord também foram avaliados, mas por diferentes razões acabaram de fora. Foi Erasmo Carlos quem, ao lado de Wanderléa, indicou um amigo que já vinha acumulando sucessos e chamava atenção do público jovem: Roberto Carlos. O trio, escolhido a poucos dias da estreia, se tornaria a espinha dorsal de um fenômeno cultural. Parte dessas informações está detalhada no livro Roberto Carlos outra vez: 1941-1970 (Vol. 1), do historiador e jornalista Paulo César de Araújo.
No domingo de 22 de agosto de 1965, às 16h30, a cortina do Teatro Record se abriu e nascia o programa Jovem Guarda. O “Brasa” Roberto Carlos surgiu de cabelos à la Beatles, botas e pulseiras, saudado por uma plateia que superlotava o teatro. Ao lado do “Tremendão” Erasmo Carlos e da “Ternurinha” Wanderléa, o cantor apresentou não apenas um programa de TV, mas um movimento musical e comportamental que marcaria para sempre a história brasileira. A estreia carregava um misto de improviso e ousadia.
Além do sucesso imediato na TV Record, a Jovem Guarda gerou um mercado até então inédito: produtos licenciados (roupas, óculos, sapatos), revistas especializadas e até gírias que invadiram o cotidiano dos jovens brasileiros. O próprio Erasmo afirmaria, anos depois, que a Jovem Guarda foi “a bandeira de todos os jovens do Brasil”. Era um estilo de vida.
Memória e emoção
Sessenta anos depois, esse mesmo espírito foi celebrado em Mato Grosso do Sul. No coração de Campo Grande, a Jovem Guarda voltou a ecoar em duas noites de agosto, quando a cidade, em meio às festividades de seus 126 anos, abriu espaço para a memória e para a emoção. O público foi convidado a revisitar um tempo em que o rock brasileiro ainda engatinhava, mas já arrebatava multidões.
A festa começou no dia 15, na Praça do Rádio Clube, com a volta da tradicional Noite da Seresta. O cenário era de reencontro: famílias inteiras espalhadas pela Concha Acústica Família Espíndola, agora revitalizada e adornada com um mural inédito assinado por Caio Green. O clima era intimista, quase doméstico, preparado pelo repertório dos seresteiros locais até que a cortina simbólica se abrisse para a estrela da noite.
Às 21h, Wanderléa surgiu sob aplausos calorosos. A “Ternurinha” que marcou gerações se apresentou diante de um público formado, em grande parte, por aqueles que a viram despontar nos anos 1960 — mas que também incluía filhos e netos, todos partilhando a mesma emoção. Durante uma hora e meia, ela atravessou sucessos da sua carreira, como Pare o Casamento (Wanderléa), Ternura (Rossini Pinto) e Prova de Fogo (Erasmo Carlos), mesclados a releituras e homenagens a Roberto e Erasmo Carlos. A cada acorde de músicas como Negro Gato (Getúlio Cortes), Quando (Roberto Carlos) ou Sentado à Beira do Caminho (Roberto e Erasmo) , o tempo parecia se dobrar sobre si mesmo, reconstituindo a efervescência das tardes de domingo na TV Record. Embora Roberto e Erasmo tenham se tornado os símbolos do movimento, as vozes femininas tiveram papel decisivo. Wanderléa abriu caminho para que outras cantoras se firmassem no cenário pop brasileiro, entre elas Martinha e Vanusa, ambas com carreiras sólidas ainda após o fim do programa.

Se a primeira noite foi dedicada ao brilho de uma das vozes originais da Jovem Guarda, a segunda mostrou que o movimento segue vivo na interpretação de novas gerações. A banda campo-grandense Coquetel Blue assumiu a missão de recriar o clima do programa que revolucionou a televisão em 1965. Na mesma data — 22 de agosto de 2025, quando o programa completou 60 anos — o show ganhou ainda mais simbolismo: a abertura ficou a cargo de Tonany, que apresentou clássicos dos Beatles, grupo que inspirou diretamente a sonoridade da Jovem Guarda.
Logo na sequência, Pedro Espíndola (guitarra e vocal), Leotta (piano e vocal), Bo Loro (bateria e vocal) e Perim (baixo e vocal) deram início ao espetáculo da Coquetel Blue. Antes de abrir o show com Splish Splash (Erasmo Carlos), Pedro dedicou a noite ao tio, curador, produtor cultural e editor gráfico Carlos Marcos Medeiros, falecido recentemente: “Ele gostava de amar e gostava de festa, e a Jovem Guarda só canta sobre amor e sobre festa”. O gesto sintetizava o tom da noite: música como celebração da vida, mesmo diante da ausência.
O repertório foi cuidadosamente pensado. Em entrevista, o baterista e vocalista Bo Loro, de 26 anos, explicou que a banda dividiu a seleção em fases: a pré-Jovem Guarda, com nomes como Tony e Celly Campello; o período do programa (1965-1968), com Roberto, Erasmo e Wanderléa no auge; e uma terceira camada, com artistas como Jerry Adriani, que ajudaram a ampliar o movimento. Essa fase posterior foi justamente o que, mais tarde, ficaria conhecido como música brega — aqui entendida não como adjetivo pejorativo, mas como substantivo, um gênero que herdou o sentimentalismo da própria Jovem Guarda e moldou parte expressiva da canção popular brasileira nos anos 1970. “A gente quis fazer um repertório com músicas que todo mundo sabe cantar todas as letras. Não é difícil, porque tem música de sobra dessa época”, contou o músico.
O show especial de 60 anos da Jovem Guarda contou com participações especiais:
Ana Lua, em dueto com Pedro interpretou “Devolva-Me”, composta por Lilian Knapp e Renato Barros e originalmente gravada por Leno e Lílian; Jerry Espíndola animou participando com “A Namoradinha de Um Amigo Meu”, composta e originalmente gravada por Roberto Carlos; entre outros convidados como Celito Espíndola, Paulo Simões, Gabriel de Andrade, Joaquim Seabra e Ana Gonzales. Além disso, o saxofonista Maestro Marcos Bezerra e a cantora Jool Azul também participaram: ela fez os back-vocais e interpretou clássicos da Jovem Guarda nas vozes femininas, como os de Wanderléa e Celly Campello. Juntos, formaram um sexteto ao lado da banda principal no palco da Cervejaria Canalhas, celebrando o movimento que inseriu definitivamente o rock’n’roll na música brasileira.
Mais do que resgatar sucessos, o show reafirmou a relevância da Jovem Guarda para o presente. “É rock and roll, muito bem feito, muito bem tocado”, disse Bo Loro. Para ele, a força do movimento está na mistura entre qualidade musical e apelo popular, além do papel histórico na consolidação do mercado fonográfico brasileiro. “Roberto e Erasmo estão entre os maiores compositores do mundo. A Jovem Guarda é riquíssima, quase impossível ouvir tudo”.

O rei no MS
O mês de agosto ainda reservou outro momento de forte emoção para os fãs. No dia 25 de agosto de 2025, uma segunda-feira, Roberto Carlos subiu ao palco do Bosque Expo, anexo ao Shopping Bosque dos Ipês, em Campo Grande. O cantor reafirmou sua conexão com o público em um show marcado por sucessos, jogo de luzes e a tradicional entrega de rosas. Fãs que aguardavam há tempos pelo encontro se emocionaram, cantando em coro músicas que atravessaram gerações.
Legado permanente
O impacto cultural da Jovem Guarda pode ser sentido até hoje: de rádios que mantêm alguns sucessos em suas respectivas playlists às releituras de artistas contemporâneos. Não por acaso, os shows de celebração em Campo Grande atraíram tanto veteranos quanto jovens curiosos pela história do rock e da música brasileira.
O programa Jovem Guarda acabou em junho de 1968. A atração sofria com quedas de audiência desde 1967, agravadas pela saída de Roberto Carlos do comando em 17 de janeiro de 1968, deixando a apresentação a cargo de Erasmo e Wanderléa. Era o fim de um movimento cultural e de um programa de televisão que marcou época. Outros fatores também contribuíram para o encerramento: a saturação do estilo, a ascensão do Tropicalismo e a rigidez da ditadura militar. Roberto deixou o programa para se dedicar à carreira solo e iniciar a transição de cantor roqueiro para romântico. Wanderléa migrou para a MPB, Erasmo manteve sua trajetória entre a MPB e o Rock, enquanto outros nomes seguiram por caminhos diversos, como o brega (Wanderley Cardoso), o sertanejo (Sérgio Reis) e até o country (Eduardo Araújo). A “festa de arromba”, iniciada em 22 de agosto de 1965 no Teatro Record, encerrava-se três anos depois — mas seu impacto permanece vivo até hoje.






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