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MS Nipo: como a cultura Pop japonesa evoluiu da imigração aos animes

  • Foto do escritor: MILENY RODRIGUES DE BARROS
    MILENY RODRIGUES DE BARROS
  • 28 de out.
  • 7 min de leitura

Da chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao sucesso dos animes, Campo Grande celebra a tradição e a modernidade da cultura nipônica em seu cotidiano


Ana Lorena, Christiane Chinem e Maria Santos


Campo Grande abriga uma das maiores comunidades nipo-brasileiras do país. Mas a influência japonesa vai muito além da Feira Central, do tradicional sobá e dos incontáveis restaurantes de sushi, que se tornaram indispensáveis àqueles que passam pela cidade morena. A presença nipônica moldou hábitos alimentares, tradicionais, culturais, práticas esportivas e até a forma como os jovens da Capital se relacionam com o mundo globalizado da cultura Pop.

A tradicional cultura nipônica em Campo Grande

Paredes decoradas com pôsteres de animes mostram a força estética e simbólica da cultura pop japonesa. (Foto: Maria Santos)
Paredes decoradas com pôsteres de animes mostram a força estética e simbólica da cultura pop japonesa. (Foto: Maria Santos)

Quando se fala em cultura japonesa em Campo Grande é quase inevitável lembrar da Feira Central e do Sobá. A feira, localizada no coração da Capital, é um espaço multicultural que há 100 anos reúne famílias em torno da gastronomia e do convívio social. Hoje, a Feira Central é também palco de apresentações culturais, eventos geeks e festivais.


Aberta desde 1982, a barraca da Níria, além de representar a culinária okinawana, também é uma forma de manter conexão com as raízes dos antepassados. Segundo Tadashi Katsuren, atual proprietário da barraca, ele ainda mantém a mesma receita trazida pelos avós. “Meu avô, seu Hiroshi Katsuren, foi o primeiro a vender sobá na feira central, em 1965, com essa receita que a gente usa até hoje. A barraca era mais voltada para atender os próprios imigrantes de Okinawa”.


O Sobá tornou-se um verdadeiro cartão postal da cidade. Não é à toa que a Feira Central tem uma escultura do prato logo na entrada. O prato é tão emblemático que em 2006 foi reconhecido como patrimônio imaterial de Campo Grande. Tadashi explica que a principal diferença da receita de Campo Grande e o da Ilha de Okinawa é o caldo. “Aqui em Campo Grande, comumente ele é feito à base de ossobuco, de carne de vaca, mas o original okinawano ele é feito a base de carne de suan, que é um retalho da carne de porco, da ossada da carne de porco. O meu caldo ainda é feito com base em porco”.


Além da gastronomia, a cidade conta com lojas especializadas em produtos japoneses, como utensílios de cozinha, doces, condimentos, artigos de decoração e roupas. Uma das lojas mais populares é o Comercial Daiji que conta com milhares de seguidores nas redes sociais e diversos tipos de produtos. O proprietário, José Evaristo Viana, de 70 anos, prefere os clientes fiéis aos que vão pela fama de animes e doramas. “Muitos vêm atrás de produtos específicos, gente que aparece só por moda. Mas meu foco são os clientes das colônias nipos e restaurantes”.


Os animes no Brasil: dos anos 80 à atualidade

Séries como Os Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e Yu Yu Hakusho chegaram através da televisão aberta nos anos 1980 e marcaram gerações, mostrando aos brasileiro uma nova forma de animação vinda do Japão. Rapidamente esses produtos conquistaram uma legião de fãs, dominando a programação da TV aberta e logo se tornando parte da infância e adolescência de milhões de pessoas.


Sérgio passou para sua filha, Maria Helena, o costume do consumo da cultura japonesa (Foto: Maria Santos)
Sérgio passou para sua filha, Maria Helena, o costume do consumo da cultura japonesa (Foto: Maria Santos)

Em Campo Grande, essa febre não passou despercebida: fitas VHS circulavam entre amigos, locadoras se tornaram pontos de encontro e até clubes de fãs começaram a surgir. Para muitas famílias, assistir animes virou um ritual coletivo, transmitido de geração para geração. Sérgio Santos, de 36 anos, cresceu com essa memória da infância . “Eu e os meus irmãos crescemos assistindo Dragon Ball e Cavaleiros dos Zodíaco.Todos os dias estávamos em frente a TV para assistir, na hora do almoço para acompanhar as lutas do Goku e a noite para ver o Seiya apanhando. Até hoje, chego do trabalho, ligo a televisão e fico horas jogando”.


O ajudante conta que o passatempo de assistir foi tão forte, que quase virou nome dos sobrinhos e de suas filhas. “Os nomes das crianças quase foram Shiryu, Hyoga e Ikki. Minha irmã só não deu o nome de Saori pra filha porque ficou com medo de zoarem e eu só não dei o nome das minhas filhas de ChiChi e Bulma porque minha esposa não deixou”.


A filha mais velha, Maria Helena Santos, 13 anos, por muito tempo assistiu animes com o pai e depois passou a assistir sozinha. “Meu anime favorito é One Piece, aquele dos piratas e O Verão que Hikaru morreu, No guarda-roupa, as camisetas estampadas tomam conta, as paredes são cheias de pôsteres e imagens dos seus personagens favoritos.


Mas diferente da geração de seu pai, que precisava contar as horas para assistir os programas, Maria tem acesso fácil aos animes que assiste com os streamings que colocaram à disposição catálogos imensos, permitindo maratonas de títulos clássicos e novos sucessos como Jujutsu Kaisen, Kimestu no Yaiba e Naruto.


A professora e pesquisadora de cultura de massas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Márcia Gomes, analisa esse processo como uma consolidação das produções japonesas. “Os animes já se firmaram no mercado há décadas. O que o streaming fez foi ampliar o acesso, mas ele não é a causa da mudança. É consequência de um processo maior de transnacionalização da cultura. Esses conteúdos japoneses já disputam espaço com os estadunidenses há muito tempo, e hoje chegam com mais rapidez”


A pesquisadora explica que, para os fãs mais jovens, o consumo deixou de ser apenas coletivo, diante da TV, e passou a ser individualizado, em telas de celulares, tablets e notebooks. Ainda assim, os animes continuam formando vínculos sociais: muitos pais que assistiram Dragon Ball ou Cavaleiros na infância hoje apresentam Naruto e Pokémon aos filhos, criando repertórios compartilhados que atravessam gerações.


Os Mangás

Os mangás, histórias em quadrinhos japonesas, também ganharam espaço em Campo Grande. O hábito de leitura conquistou jovens que se identificam com os personagens e suas narrativas complexas. Atualmente, o gênero tem aparição constante em diversas listas de Mais Vendidos no Brasil publicadas pela PublishNews e conta com três grandes editoras que fazem publicações mensais de centenas de obras, A JBC, Panini e NewPOP, de acordo com a Biblioteca Brasileira de Mangás. Segundo a Panini, durante a pandemia houve uma expansão do consumo de mangás, o que fez a editora investir mais na impressão.


Livrarias locais e sebos mantêm seções dedicadas aos mangás, e a prática de colecioná-los é comum entre os fãs de anime. Além disso, oficinas e clubes de leitura ajudam a perpetuar esse hábito, mostrando que os mangás não são apenas entretenimento, mas também uma ponte cultural entre a literatura japonesa e brasileira.


A professora de inglês, Eduarda de Oliveira, 26 anos, é uma entusiasta do mangá, paixão que começou em 2016, com Naruto, escrito por Masashi Kishimoto. “Minha mãe me dava um exemplar toda semana, de várias histórias e autores diferentes. A maioria eu não tenho mais e não consigo comprar devido aos altos preços, mas sempre leio por outro métodos”.


Cosplays: identidade e criatividade

Cosplay, abreviação de costume play, moda que surgiu na cidade de Nova York, na primeira em 1939,Os fãs japoneses adotaram o hobby, que se tornou frequente em eventos tradicionais, mas a prática de se vestir como personagens de animes, mangás ou jogos, também se tornou um fenômeno em Campo Grande. Eventos locais, como convenções de anime e encontros de fãs, reúnem cosplayers que exibem suas criações com orgulho e dedicação.


A estudante Ana Longen Rieth, 20 anos, teve contato com a cultura pop japonesa pelos mangás e animes o que a levou ao mundo dos cosplays aos 12 anos. “Eu via muitos cosplayers em vídeos e imagens de eventos grandes e comecei a me sentir inspirada”. O que era apenas um passatempo, tomou outras proporções durante a pandemia, onde ela achou, com perucas baratas, maquiagens simples e roupas que já tinha em casa, uma fuga do medo e angústia que sentiu no período.

Ana: Desde 2020, um dos hobbies de Ana é fazer cosplay (Foto: arquivo pessoal)
Ana: Desde 2020, um dos hobbies de Ana é fazer cosplay (Foto: arquivo pessoal)

A jovem se aprofundou no assunto e aprimorou suas habilidades, criando um vínculo de afeto com maquiagens artísticas e acessórios. “Mesmo agora com pouco tempo, esse é um hobby que eu não quero largar, Ao mesmo tempo que é muito prazeroso , traz uma abertura de interação social grande”.


Linha do tempo da imigração japonesa até a era dos animes

A presença japonesa em Campo Grande remonta ao início do século 20. A primeira leva de imigrantes japoneses chegou ao Brasil em 1908, no navio Kasato Maru, atracado no Porto de Santos, no Estado de São Paulo. Aos poucos, famílias japonesas foram migrando para diferentes regiões, em busca de novas oportunidades. Em Mato Grosso do Sul, os japoneses encontraram terras férteis e um espaço propício para desenvolver a agricultura e o comércio.


1905 - Fukashi Sugimura, Primeiro Ministro do Japão entrega um relatório sobre imigração ao governo japonês.


1907 - Primeira colônia japonesa na fazenda Santo Antônio, Rio de Janeiro, precursora da imigração japonesa.


1908 - No dia 18 de junho, o navio Kasato Maru atracou no Porto de Santos, trazendo 781 imigrantes para trabalhar nos cafezais paulistas.


1914 - Um grande número de imigrantes chegam a Campo Grande e se estabelecem na produção de alimentos agrícolas. O Governo brasileiro cancelou o subsídio da imigração japonesa.


1925 - A Feira Central é fundada e as famílias começam a vender suas mercadorias, o sobá, prato criado na ilha de Okinawa passa a ser servido.


1958 - Aniversário de 50 anos da Imigração Japonesa.


1988 - Acontece o segundo recenseamento nipo-brasileiro: 1,30 milhão de japoneses e descendentes residiram no Brasil. As animações Dragon Ball e Os Cavaleiros dos Zodíaco chegam aos canais de televisão aberta para suprir a demanda de programações infantis, conquistando o público brasileiro.


2000 - Os animes perdem seu espaço na TV aberta e acaba nichado para canais fechados.


2010 até Atualmente - O serviço de streaming da Netflix adiciona em seu catálogo animes famosos dos anos 2000, trazendo a popularidade do gênero em alta novamente e aumento seu consumo.



Todos os dados citados acima foram tirados do site Oficial da Embaixada Japonesa do Brasil, G1, Portal Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing, o Portal de 100 anos da Imigração Japonesa e da Assembléia Legislativa do estado de São Paulo.




 
 
 

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