Movimento noturno resiste na 14 de Julho um ano após o fim do Corredor Gastronômico
- MILENY RODRIGUES DE BARROS
- 27 de out.
- 3 min de leitura
Comerciantes apostam em possível retorno das interdições aos finais de semana, desta vez mais planejado e com mais financiamento público
Eduardo Boiago, Maria Clara de Assis e Pedro Fursts
O projeto de fechamento da Rua 14 de Julho, na região central de Campo Grande (MS), completou um ano desde o último final de semana em operação, em 28 de setembro de 2024. A chamada “14”, pelos boêmios, concentra os bares e restaurantes mais populares da cidade, que reúnem muita música, bebida e comida para os frequentadores.

A interdição da 14 de Julho foi iniciada em 23 de agosto de 2024 e passou a acontecer às sexta-feiras e sábados. O fechamento, a princípio, buscou fomentar o comércio e o lazer noturnos no chamado novo Corredor Gastronômico da Capital. A iniciativa durou apenas um mês, quando diversos baristas publicaram uma nota em conjunto nas redes sociais e enviaram um documento à Prefeitura de Campo Grande com reclamações dos vendedores ambulantes na região. Os comerciantes alegavam que as vendas paralelas aos bares estavam impactando diretamente seus negócios.
Uma semana depois, um acordo entre a Prefeitura e os empresários da 14 de Julho revogou a decisão do fechamento da via. A motivação para a decisão foi a falta de organização nas noites de interdição.
O dono do bar Pizza Pub, Jean Vernochi, foi um dos apoiadores para revogar o fechamento. O empresário afirma que manter um comércio no centro de Campo Grande é caro e o poder público deveria regulamentar e fiscalizar os pontos de venda, evitando concorrência desleal. “Naquela época, a expectativa foi muito boa, porém o controle foi péssimo e pouco. A gente é a favor da exploração do comércio do centro por todos, porque o centro tem que ser vivo. Só queremos regularização”, completa.
O Má Donna Bar abre todos os dias e, além de ser um dos pontos mais movimentados da 14 de Julho, foi um dos primeiros a abrir após o horário comercial no início do plano de ocupação noturna do centro. O dono do estabelecimento, Kayky Sanches, também criou boas expectativas quando a interdição da rua foi anunciada. Mas, para o barista, além da regulamentação, também faltaram segurança e estruturas adequadas diante do aumento de frequentadores na região.
Para o empresário, do ponto de vista econômico, seu empreendimento se tornou muito mais rentável durante o fechamento da via, mas ele tinha receio das situações inconvenientes que acabavam acontecendo durante o expediente, como banheiros insalubres e falta de vigilância pública. “A gente estava com medo, porque não tinha segurança, não tinha banheiro suficiente. A gente pediu a estrutura, mas ela não veio”, detalha.
Além disso, segundo Sanches, foram realizadas reuniões semanais com as secretarias responsáveis pelo projeto do corredor gastronômico, mas as propostas dos empresários nunca foram acatadas.
Após casos de violência nos finais de semana, inclusive o assassinato do jovem Ismael Santos, de 22 anos, o debate sobre um novo fechamento foi reaceso pelos comerciantes e frequentadores. Aurora Arruda, cliente assídua dos bares da região, alega que o lugar que concentra a recém-criada vida noturna da capital está abandonado pela gestão.

Se para os donos dos bares o fechamento da 14 de Julho foi bom, para quem frequentava era melhor ainda. A reportagem conversou com um grupo de amigos, que chamou atenção para a oportunidade que o espaço dava para aproveitar a noite sem gastar muito. Glenda Pereira, uma das frequentadora, enfatiza que a região, por ser pública, tem a vantagem do acesso, sem necessidade de pagar pela entrada, como é comum em outros bares da capital. Tiago de Moraes, colega de Glenda, elenca a rua como muito diversa e inclusiva quanto a pessoas, músicas, bebidas e comidas – um atrativo para que públicos de diversos gostos, idades, gêneros e orientações sexuais sintam-se confortáveis.
Marcela de Azevedo e seu namorado, Mariano Depieri, são DJs e se apresentam com entusiasmo na 14, uma vitrine para seus trabalhos e projetos. Eles se unem à opinião de outros frequentadores que se encantam com o espaço por proporcionar um lazer acessível e inclusivo. Em todos os grupos que a reportagem entrevistou, a pergunta que fica é a mesma: se não existisse a 14 para onde você iria?
Sanches acredita que a 14 de Julho tem grande potencial para voltar a ser interditada aos finais de semana. Vernochi afirma que o corredor gastronômico, se bem planejado, pode voltar a atrair a cidade toda para o centro e ser comparado a outras capitais que contam com projetos de lazer semelhantes em andamento, como a Paulista e a Vila Madalena, em São Paulo, ou a Lapa, no Rio de Janeiro.







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