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Memória em ruínas

  • lauras05
  • 21 de out.
  • 3 min de leitura

A resistência de monumentos tombados de manter história viva


Texto e fotografia Helena Fuzineli e Maria Fernanda Moura


As paredes antigas da Morada dos Baís e os trilhos silenciosos da Esplanada Ferroviária guardam a mesma pergunta: como manter viva a história de uma cidade que se reinventa a cada década? Em Campo Grande- MS, os monumentos tombados são marcos de origem e identidade, mas também testemunhas do abandono, do desgaste do tempo e das disputas entre modernidade e memória.

O sol da tarde desce lentamente sobre os trilhos enferrujados da Esplanada Ferroviária. O vento sopra entre as estruturas antigas, carregando um cheiro de madeira úmida e ferro gasto. Ali, onde antes o apito do trem cortava o ar e movimentava o coração da cidade, hoje o som predominante é o eco dos passos de quem visita exposições e eventos no pequeno espaço restaurado e mantido pelos servidores.

Onde antes funcionava o movimentado saguão da bilheteria, tomado pelo vai-e-vem apressado de passageiros que buscavam não perder o trem para seu próximo destino, hoje permanecem apenas as lembranças, preservadas pela Associação dos Ferroviários, Aposentados, Pensionistas, Demitidos e Idosos (AFAPEDI), que ocupa o mesmo espaço. Entre memórias e afetos, destaca-se a história de Nelson Pereira, que cresceu em uma família ferroviária e passou a infância entre vagões. Com brilho nos olhos, ele recorda seus 26 anos como maquinista e se emociona ao afirmar: “O Monumento Ferroviário é a história da minha vida, de Campo Grande e do nosso Estado. Por ter passado minha vida aqui, o carinho é imenso. A gente tenta preservar e fazer o possível para manter essa história viva”.

Parte interna do vagão totalmente em destroços              
Parte interna do vagão totalmente em destroços              
 Espaço do futuro museu, onde os itens ainda estão empilhados
 Espaço do futuro museu, onde os itens ainda estão empilhados

A Esplanada hoje se divide: de um lado, há uma parte que ainda busca manter a história viva, por meio de um museu que reuniria todas as informações e memórias desde sua fundação até os dias atuais, mas que, por enquanto, encontra-se paralisado devido a questões burocráticas. De outro, estão áreas como o único vagão ainda de pé e a rotunda, um mecanismo de manobra para os trens, que se encontram em ruínas. É possível observar destroços pela janela do

  Efeito das intempéries climáticas na estrutura do armazém
  Efeito das intempéries climáticas na estrutura do armazém

vagão, seu telhado coberto por lona e madeiras estufadas e lascadas. Já na rotunda, o abandono se fez aos poucos, com a natureza tomando conta, pichações espalhadas, tornando o local perigoso ao anoitecer. Com tristeza e angústia, Nelson desabafa: “É triste ver a história chegar ao fundo do poço para depois tentar ser revivida. Quando poderia ter sido feito algo antes”.


Estrutura da Rotunda tomada pela natureza
Estrutura da Rotunda tomada pela natureza

Um lar restaurado


Alguns quilômetros de distância dali, na Avenida Afonso Pena, um casarão chama a atenção pela sua arquitetura antiga em meio aos prédios comerciais. A Morada dos Baís, com sua fachada em tons de amarelo e branco, já lar da família Baís, uma das mais tradicionais de Campo Grande, e guarda na memória a trajetória da artista plástica Lídia Baís. Após um período de silêncio, o casarão foi restaurado e reaberto ao público no dia 28 de agosto de 2025, atendendo a necessidade de devolver à cidade um de seus símbolos culturais.

A gestora da Morada, Vanessa Basso, expressa com afeto em sua voz que “é muito mais que um prédio histórico: é um símbolo das nossas raízes, da identidade e da transformação de Campo Grande. Preservá-la é cuidar da memória da nossa cidade, e vê-la viva como espaço cultural reforça esse papel".

O imponente casarão da Morada dos Baís, fundado entre 1913 e 1918
O imponente casarão da Morada dos Baís, fundado entre 1913 e 1918

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