Meio século de artesanato sul-mato-grossense
- CAMILA RODRIGUES CUNHA
- 10 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Conhecido como o pontinho amarelo do Centro, a Casa do Artesão mantém um acervo de peças de artesanatos e cultura sul-mato-grossenses que perdura no tempo
Por Catarina Azamor e Ana Paula Souza

Foto tirada por Catarina Azamor
No coração de Campo Grande, um casarão tombado como patrimônio histórico estadual mantém viva a memória cultural e o talento de centenas de artesãos do Mato Grosso do Sul. A estrutura em si é uma charmosa senhora, construída entre 1918 e 1923, com projeto do famoso arquiteto Camillo Boni. Foi a primeira sede do Banco do Brasil na capital. A Casa do Artesão foi inaugurada no dia 1º de setembro de 1975 e revitalizada em 20 de março de 2023, é mais que um ponto turístico, é um espaço de resistência, trabalho e afetos. Entre corredores cheios de cores, tetos de madeira, fibras, cerâmicas e grafismos indígenas, circulam histórias que revelam o papel social e cultural desse patrimônio da capital.
À frente da gestão da Casa há 12 anos, Eliane Torres faz parte da Fundação de Cultura há mais de 35 anos. Para ela, a Casa do Artesão é mais que um ambiente cultural, é sua “segunda casa”. Ela coordena mais de 500 artesãos expositores no espaço de um total de 2 mil cadastrados representando técnicas artesanais diversas e de diferentes povos tradicionais. As peças são deixadas em consignação e comercializadas tanto na sede quanto na nova loja instalada no BioParque Pantanal. Eventos como shows e a Semana do Artesão fortalecem ainda mais a visibilidade do espaço. A revitalização feita em 2023 também marcou sua trajetória. “Ver a casa restaurada foi emocionante. Tudo novinho, climatizado, preservando a história”, afirma Eliane.

Foto de arquivo
A Casa do Artesão se consolida como um dos principais pontos turísticos de Campo Grande, uma vitrine do artesanato regional. “Quem vem a Campo Grande e não passa pela Casa do Artesão, não conhece a cidade”, resume Eliane, com o sentimento de amor pelo local. Mais do que tijolos e paredes pintadas, a Casa abriga histórias de luta, cultura e pertencimento. Um espaço onde o artesanato vive como expressão de identidade sul-mato-grossense e cada peça exposta leva o trabalho diário de quem transforma matéria-prima em algo especial e único.
Artesanato como sustento, cura e companhia
Ronaldo Chagas Corrêa, funcionário público que trabalha há 12 anos na Casa do Artesão, relata que o maior desafio de trabalhar no espaço é a falta de visibilidade. “É pouco reconhecida. Muita gente daqui da capital mesmo não sabe que este prédio é a Casa do Artesão”. A falta de divulgação e a dependência dos canais oficiais de comunicação do Estado dificultam alcançar novos públicos. Após a revitalização da estrutura, feita em 2023, houve uma melhora no turismo. Segundo Ronaldo, o fluxo de visitantes cresceu, pessoas que já visitaram a Casa ficaram interessadas em conhecer o novo espaço. “A casa ficou mais presente, mais viva”.
Para muitas pessoas, a Casa é mais que um local de vendas, é uma forma de felicidade, pertencimento e paz. Antônia dos Reis Magalhães é artesã há mais de 25 anos, encontrou no artesanato um caminho durante o desemprego. Hoje, divide seu tempo entre a produção de animais pantaneiros de madeira e biscuit, e a convivência com colegas. “Adoro vir aqui (Casa do Artesão). É meu ganha-pão e também ameniza a minha solidão. Aqui é meu mundo.” Ela possuí alguns desafios para produzir as peças, tanto físicos quanto emocionais, devido às longas horas de produção e pouco descanso. Mas guarda também um momento marcante durante o primeiro pagamento que recebeu. “Foram R$2,50. Fiquei triste, mas não desisti. Hoje fico feliz com o que vendo.” Antônia também expõe na filial da Casa do Artesão, localizada no BioParque Pantanal.
Entre as etnias presentes na Casa do Artesão, estão Kadiwéu, Terena, Bororó e Kinikinau. A representatividade dentro do artesanato é necessária e importante para a Casa do Artesão, que busca divulgar a arte indígena de diferentes formas, e expositores. Elizabete da Silva tem 59 anos é indígena kadiwéu da aldeia Alves de Barros no município de Porto Murtinho. Aprendeu a arte do grafismo indígena ainda criança, observando a mãe, e segue produzindo peças únicas de seu povo, criados no momento, sem manual, com ajuda de barro e cerâmica. Mas lamenta a falta de políticas específicas para apoiar o artesanato indígena. “Há falta de comercialização e de reconhecimento. Deveria existir uma política voltada ao artesanato kadiwéu.” Ainda assim, ver suas peças sendo compradas por turistas é motivo de orgulho. “É uma satisfação imensa saber que valorizam nosso trabalho.”
As peças artesanais se espalham pelos lugares da casa; o ponto mais ilustre, a estante branca de madeira com a escada preta com um visual digno de uma biblioteca, contrasta com a arquitetura antiga preservada, composta por tetos altos feitos de madeira e ferro, paredes de tijolos marrons e janelas de vidro com grades de ferro. A disposição das estantes e mesas são próprias para circulação das pessoas, com o intuito de chamar a atenção para as peças de artesanato expostas para a venda, construindo um ambiente cultural composto por criatividade, mas sobretudo, amor pelo estado que abriga 60% do bioma e das tradições pantaneiras.

Foto tirada por Catarina Azamor






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