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Leitura é terapia

  • lauras05
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

O projeto Dose de Letras nasceu da necessidade de proporcionar conforto para quem enfrenta longos períodos de internação


Emelyn Gomes, Evelyn Fernandes e Helena Fuzineli


Na Santa Casa de Campo Grande, um carrinho de supermercado ganhou novo significado. Pintado, personalizado e abastecido com livros de diversos gêneros, ele circula diariamente entre pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde, oferecendo algo que muitas vezes falta no ambiente hospitalar: alívio emocional.

A ideia surgiu quando a equipe buscava alternativas para reduzir a ansiedade dos pacientes durante a hospitalização. Em vez de uma biblioteca física (inviável devido às limitações de locomoção e às áreas de isolamento) a solução encontrada foi simples: transformar um carrinho de supermercado em uma mini biblioteca móvel. Compacto, leve e fácil de higienizar, ele permitiria que os livros chegassem diretamente aos leitos. 

Nos mesmos moldes funciona o projeto “Do conto à vida: o Clube do Livro como ferramenta transformadora no CAPS-AD em Três Lagoas/MS”. Desenvolvido por estudantes  da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul do campus de Três Lagoas, e apresentado no Integra 2025, evento científico da universidade, pela acadêmica de Medicina Lara Rodrigues. Embora sigam caminhos diferentes, ambos os projetos nascem do mesmo princípio: em meio ao peso do tratamento, aos protocolos rígidos e à rotina desgastante, o livro pode abrir uma fresta de humanidade. No CAPS-AD, essa fresta se amplia nas rodas de leitura, já na Santa Casa, surge no carrinho que desliza pelos corredores. O que os une é a literatura como um espaço que pode acolher, distrair ou simplesmente fazer companhia quando o mundo parece estreito demais. 

“No início, a gente só queria fazer algo para distrair os pacientes”, explica Emily Moraes, supervisora do Serviço Social da Santa Casa de Campo Grande.

Esperança em forma de literatura sendo entregue por voluntária. (Foto: Acervo do Serviço Social da Santa Casa)
Esperança em forma de literatura sendo entregue por voluntária. (Foto: Acervo do Serviço Social da Santa Casa)

O projeto começou com apenas um carrinho, mas rapidamente cresceu após mobilização nas redes sociais e entre funcionários. Doações de livros chegaram em quantidade tão expressiva que hoje o acervo seria suficiente para abastecer dez carrinhos. A limitação, no entanto, está na infraestrutura: para que o projeto se expanda, é preciso adquirir e adaptar novos carrinhos, por meio de doações. Ainda assim, a Santa Casa conseguiu estruturar mais duas unidades e ampliou sua atuação para três áreas estratégicas: a ala adulta do primeiro andar, a ala de queimados no segundo andar e o serviço ambulatorial de oncologia, onde pacientes passam horas em quimioterapia.

Em cada setor, a leitura cumpre função mais profunda do que simplesmente entreter. Em meio à espera prolongada, à preocupação com diagnósticos e a tratamentos desgastantes, os livros operam como dispositivos de redução de ansiedade e suporte emocional.

Assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e médicos participam do processo, oferecendo títulos conforme as preferências de cada paciente. Quando alguém não pode se levantar ou tem dificuldade motora, o profissional seleciona opções e leva diretamente ao leito.

O retorno positivo também vem dos próprios trabalhadores da saúde, que percebem mudanças no comportamento dos pacientes quando têm acesso à leitura. Em setores como queimados e oncologia, onde a permanência pode ser longa e a rotina exaustiva, a presença do carrinho se tornou parte do cotidiano terapêutico. Há, inclusive, materiais para diferentes perfis: literatura, romance, gibis, livros infantis, títulos de estudo para o Enem e até obras religiosas. A pluralidade é intencional, para que o leitor escolha aquilo que o aproxima de sua rotina fora do hospital.

A simplicidade do projeto não o livra de desafios. O principal entrave é material: a falta de recursos impede a expansão para setores como pediatria e cuidados paliativos, onde a leitura também poderia desempenhar papel fundamental. Já os livros não representam problema quando algum exemplar é usado por pacientes de áreas de contaminação ou isolamento. O hospital simplesmente o doa, garantindo segurança e continuidade de outros projetos.

Atualmente, o Dose de Letras funciona, principalmente, como instrumento de humanização. Ao circular entre corredores, leitos e salas de quimioterapia, os carrinhos rompem a monotonia do ambiente hospitalar e introduzem elementos de escolha, autonomia e prazer. Em um espaço onde os pacientes frequentemente se sentem submetidos a regras, procedimentos e rotinas rígidas, folhear um livro pode ser uma das poucas ações que retomam o controle sobre o próprio tempo.

Para saber mais sobre o projeto, Dose de Letras da Santa Casa de Campo Grande-MS, acesse: https://santacasacg.org.br/noticia/projeto-dose-de-letras-incentiva-leitura-no-hospital

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