Leitura é terapia
- lauras05
- há 6 dias
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O projeto Dose de Letras nasceu da necessidade de proporcionar conforto para quem enfrenta longos períodos de internação
Emelyn Gomes, Evelyn Fernandes e Helena Fuzineli
Na Santa Casa de Campo Grande, um carrinho de supermercado ganhou novo significado. Pintado, personalizado e abastecido com livros de diversos gêneros, ele circula diariamente entre pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde, oferecendo algo que muitas vezes falta no ambiente hospitalar: alívio emocional.
A ideia surgiu quando a equipe buscava alternativas para reduzir a ansiedade dos pacientes durante a hospitalização. Em vez de uma biblioteca física (inviável devido às limitações de locomoção e às áreas de isolamento) a solução encontrada foi simples: transformar um carrinho de supermercado em uma mini biblioteca móvel. Compacto, leve e fácil de higienizar, ele permitiria que os livros chegassem diretamente aos leitos.
Nos mesmos moldes funciona o projeto “Do conto à vida: o Clube do Livro como ferramenta transformadora no CAPS-AD em Três Lagoas/MS”. Desenvolvido por estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul do campus de Três Lagoas, e apresentado no Integra 2025, evento científico da universidade, pela acadêmica de Medicina Lara Rodrigues. Embora sigam caminhos diferentes, ambos os projetos nascem do mesmo princípio: em meio ao peso do tratamento, aos protocolos rígidos e à rotina desgastante, o livro pode abrir uma fresta de humanidade. No CAPS-AD, essa fresta se amplia nas rodas de leitura, já na Santa Casa, surge no carrinho que desliza pelos corredores. O que os une é a literatura como um espaço que pode acolher, distrair ou simplesmente fazer companhia quando o mundo parece estreito demais.
“No início, a gente só queria fazer algo para distrair os pacientes”, explica Emily Moraes, supervisora do Serviço Social da Santa Casa de Campo Grande.

O projeto começou com apenas um carrinho, mas rapidamente cresceu após mobilização nas redes sociais e entre funcionários. Doações de livros chegaram em quantidade tão expressiva que hoje o acervo seria suficiente para abastecer dez carrinhos. A limitação, no entanto, está na infraestrutura: para que o projeto se expanda, é preciso adquirir e adaptar novos carrinhos, por meio de doações. Ainda assim, a Santa Casa conseguiu estruturar mais duas unidades e ampliou sua atuação para três áreas estratégicas: a ala adulta do primeiro andar, a ala de queimados no segundo andar e o serviço ambulatorial de oncologia, onde pacientes passam horas em quimioterapia.
Em cada setor, a leitura cumpre função mais profunda do que simplesmente entreter. Em meio à espera prolongada, à preocupação com diagnósticos e a tratamentos desgastantes, os livros operam como dispositivos de redução de ansiedade e suporte emocional.
Assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e médicos participam do processo, oferecendo títulos conforme as preferências de cada paciente. Quando alguém não pode se levantar ou tem dificuldade motora, o profissional seleciona opções e leva diretamente ao leito.
O retorno positivo também vem dos próprios trabalhadores da saúde, que percebem mudanças no comportamento dos pacientes quando têm acesso à leitura. Em setores como queimados e oncologia, onde a permanência pode ser longa e a rotina exaustiva, a presença do carrinho se tornou parte do cotidiano terapêutico. Há, inclusive, materiais para diferentes perfis: literatura, romance, gibis, livros infantis, títulos de estudo para o Enem e até obras religiosas. A pluralidade é intencional, para que o leitor escolha aquilo que o aproxima de sua rotina fora do hospital.
A simplicidade do projeto não o livra de desafios. O principal entrave é material: a falta de recursos impede a expansão para setores como pediatria e cuidados paliativos, onde a leitura também poderia desempenhar papel fundamental. Já os livros não representam problema quando algum exemplar é usado por pacientes de áreas de contaminação ou isolamento. O hospital simplesmente o doa, garantindo segurança e continuidade de outros projetos.
Atualmente, o Dose de Letras funciona, principalmente, como instrumento de humanização. Ao circular entre corredores, leitos e salas de quimioterapia, os carrinhos rompem a monotonia do ambiente hospitalar e introduzem elementos de escolha, autonomia e prazer. Em um espaço onde os pacientes frequentemente se sentem submetidos a regras, procedimentos e rotinas rígidas, folhear um livro pode ser uma das poucas ações que retomam o controle sobre o próprio tempo.
Para saber mais sobre o projeto, Dose de Letras da Santa Casa de Campo Grande-MS, acesse: https://santacasacg.org.br/noticia/projeto-dose-de-letras-incentiva-leitura-no-hospital






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