Entre o amarelo da campanha e a sombra da realidade
- lauras05
- 14 de out.
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Em Campo Grande, a prevenção ao suicídio ganha destaque apenas durante a campanha do Setembro Amarelo. No restante do ano, persiste o silêncio, a falta de empatia e a ausência de políticas públicas contínuas
Ana Porangaba, Emilenne Queiroz e Luana Passini
Em setembro, as ruas de Campo Grande ganharam tons de amarelo. Prédios públicos enfeitados e mensagens espalhadas pelas redes sociais lembram que é o mês de prevenção ao suicídio. A cidade se mobiliza em palestras, caminhadas e discursos. Mas, quando o calendário virou a página, as luzes se apagaram e o tema desapareceu. Para quem convive com a dor da perda ou enfrenta diariamente o sofrimento psíquico, a sensação é de que a atenção dura apenas trinta dias.

Tátta Bidart, coordenadora do Grupo Amor Vida (GAV), sabe bem como essa oscilação se reflete na prática. O telefone da instituição, que funciona 24 horas por dia, recebe mais chamadas em setembro. O aumento não acontece porque as pessoas sofrem mais nesse mês, mas porque a campanha coloca a saúde mental em evidência. Passado o alvoroço, as ligações diminuem, mesmo quando a dor permanece. Para Tátta, a campanha só tem efeito real quando promove reflexão e quebra de tabus. Caso contrário, reduzida a slogans e imagens de impacto, pode machucar ainda mais quem sofre em silêncio.

Nos corredores do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas Guanandi (CAPS AD), a psiquiatra Viviane Vasconcelos percebe o mesmo movimento. Durante setembro, cresce a busca por atendimento, mas também aumentam os casos de tentativa de suicídio. O contraste é preocupante, já que a mesma campanha que incentiva a procura por ajuda não consegue impedir que muitas pessoas cedam ao desespero. Ela recorda histórias de pacientes marcados pela dependência química e pela falta de autoestima, que oscilaram entre recaídas e recomeços. Em alguns, a terapia e a medicação abriram novos caminhos, em outros, a luta parecia não ter fim.
O psicólogo Renan Gomes também sente o peso dessa contradição. Em determinadas regiões da rede pública, apenas quatro profissionais da psicologia dão conta de uma demanda crescente. Entre adolescentes, o quadro é ainda mais delicado. Muitos chegam após sofrerem bullying ou viverem em lares onde o diálogo não encontra espaço. Renan lembra de uma jovem que acompanhou por meses, vítima de humilhações constantes na escola. O acolhimento contínuo conseguiu evitar uma tragédia, mas ele admite que nem sempre há braços suficientes para chegar a todos.

A mesma realidade atravessa os muros da universidade. Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o projeto de extensão Laboratório de Escuta e Acolhimento Psicológico (LEAP) oferece plantão para atender estudantes em sofrimento. José Eduardo Faria, estudante de Psicologia e integrante do projeto, defende que o Setembro Amarelo deveria ser a culminância de um trabalho contínuo, e não a única época em que o tema ganha destaque. O plantão funciona como uma porta aberta: o estudante pode procurar o atendimento a qualquer momento para desabafar ou receber encaminhamento. Mas, na prática, a campanha concentra esforços em um único mês, enquanto as dores seguem atravessando todos os outros.

A realidade local acompanha a tendência nacional, a Organização Mundial da Saúde aponta que, enquanto outros países registram queda nos índices de suicídio, as Américas caminham na contramão, com números em crescimento. Em Mato Grosso do Sul, historicamente um dos estados com maiores taxas, a lei nacional que tornou oficial a campanha não impediu que a rotina permanecesse marcada por tentativas e mortes.
Para além das estatísticas, o peso da indiferença social agrava o problema. Fora de setembro, crianças, jovens e adultos continuam sendo alvo de piadas, comparações nas redes sociais e bullying velado ou explícito. No lugar da empatia, encontram julgamento. No lugar da escuta, encontram silêncio.
É nesse vazio que surgem histórias como a de Ana Beatriz Gomes Bueno, uma jovem de 16 anos, pele parda, cabelo liso castanho escuro com franja e um olhar que carrega tanto força quanto ansiedade. Ana é uma jovem que, apesar da pouca idade, já enfrentou profundos desafios emocionais. Os primeiros sinais da depressão surgiram cedo, quando a pandemia a isolou do mundo aos 11 anos. O vazio das ruas e o peso da solidão se refletiam dentro de casa, e foi nesse silêncio que ela começou a reconhecer os sintomas. O caminho não foi fácil. Além da dor íntima, vieram as palavras que ferem, comentários que chamavam seu sofrimento de “frescura” ou insinuavam que ela não queria melhorar. No entanto, a lembrança constante da família e dos amigos impediu que desistisse. Pensava na dor que sua ausência causaria a eles e decidiu buscar ajuda. Hoje, Ana insiste que a depressão não pode ser reduzida a julgamentos morais ou crenças equivocadas: é uma doença real, que exige cuidado, tratamento e, acima de tudo, compreensão.
A experiência da adolescente expõe, em escala pessoal, o que profissionais e voluntários já identificam em sua rotina: a falta de informação, o peso dos estigmas e o silêncio coletivo que ainda cercam a saúde mental. Tátta, coordenadora do GAV, insiste que a mudança depende da coragem de falar sobre o sofrimento sem estigmas. Ela acredita que só haverá transformação quando as pessoas entenderem que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de bravura. Enquanto isso não acontece, a cena se repete: a cidade brilha em amarelo por alguns dias e, depois, volta à penumbra, onde a dor segue invisível.
Ouça o depoimento dos entrevistados aqui.






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