Educação (in)segura
- MILENY RODRIGUES DE BARROS
- 18 de out.
- 3 min de leitura
Casos de assédio e violência sexual na UFMS expõem a vulnerabilidade de mulheres diante de má iluminação e da omissão institucional
Dayranny Amorim, Gabriel Barbosa. Grazielly Marangon, Gustavo Henn e Noysle Carvalho
Ao caminhar pelos corredores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) é possível observar o mascote da universidade presente, seja no animal que convive com os estudantes até os adesivos da capivara sorridente no marketing da instituição. O ambiente arborizado e com um laguinho, o famoso Lago do Amor, transmite o contato com a natureza. Em um olhar rápido, parece um local inofensivo, carrega o sentimento de acolhimento e tranquilidade. Porém, as mulheres que estão ali, enxergam e enfrentam algo fora do ideal criado: a violência.
Na UFMS, a segurança das mulheres é pauta, principalmente entre as acadêmicas. Casos que demonstram a insegurança no local ganharam repercussão na sociedade campo-grandense. Um deles envolveu um agora ex-professor do curso de Biologia, lotado no Instituto de Biociências, que estuprou uma aluna e, mesmo após condenação, continuou dando aulas na universidade. A demissão só ocorreu quase dez anos após o crime, em setembro deste ano.
Na Capital, os dados mostram que essa não é uma realidade exclusiva da Universidade Federal. De acordo com o Monitor de Violência Contra à Mulher, da Secretaria de Estado e Segurança Pública (Sejusp), que integra os dados do Sistema Integrado de Gestão Operacional (SIGO), “estabelecimento de ensino” aparece em 10º dos 18 locais de maior incidência das ocorrências de violência contra mulher.
Em agosto, a estudante de Biologia, Jardim Orco, passou por um episódio de assédio na Concha Acústica, dentro da Cidade Universitária da UFMS. Durante a noite do dia 25, a estudante se deparou com um homem a observando e que a importunou sexualmente. Diante do fato, o sentimento da acadêmica é de desamparo, dentro e perto do perímetro da universidade. “Me sinto em risco, além de sentir que outras possíveis vítimas podem passar pelo mesmo que passei”.

Concha Acústica da UFMS, local onde a acadêmica Jardim Orco sofreu importunação sexual
Foto: Gabriel Ruas
Na tentativa de ser ouvida e denunciar a agressão, Jardim foi até a Delegacia da Mulher, e mesmo com a denúncia e um vídeo que comprova o que passou, o agressor continua solto. “A frustração por saber o quanto descaso e falta de cuidado existem na Delegacia da Mulher em Campo Grande, me deixa completamente deprimida. Isso não diz apenas respeito ao meu caso”, afirma.
A Universidade possui locais mal iluminados, ou até mesmo sem nenhuma iluminação, o que reforça o sentimento de vulnerabilidade e impotência, e coloca em pauta a integridade física das pessoas que frequentam a universidade, principalmente as mulheres.
Mas os relatos de assédio não são apenas no período noturno. Com a ex-acadêmica da UFMS, Bruna Lino, o assédio aconteceu durante o dia. No ponto de ônibus externo à instituição, enquanto esperava o transporte público para ir para casa, um homem, de dentro do carro, a abordou.
Com insistência inicial para que Bruna entrasse no carro, a estudante precisou correr para perto de outras pessoas quando o homem ameaçou sair do veículo e ir até a direção da estudante, demonstrando que iria forçá-la a entrar no veículo. "A gente sabe que os pontos de ônibus próximos da UFMS e até mesmo dentro da instituição são péssimos. É complicado. São várias coisas desse tipo que, às vezes, a gente não dá importância. Ainda mais por ser durante o dia”, conta.
Fora dos muros da Universidade a incerteza continua e acompanha a trajetória das jovens. Do número total dos casos de violência doméstica, 35,4% aconteceram com mulheres dessa faixa etária.

(Gráfico: Gabriel Ruas / Fonte: SEJUSP-MS e PJMS)
Em contrapartida aos casos, a UFMS lançou em 2020 a campanha “Eu Respeito”. A iniciativa se compromete a tornar o local mais acolhedor e respeitoso em todos os níveis. Porém, em relação às diversas denúncias de importunação sexual feitas, não houve resposta. A equipe de reportagem tentou contato com a universidade, para posicionamento sobre os casos de violência e medidas de seguranças presentes no espaço, mas até o fechamento desta matéria não houve retorno. O espaço segue aberto para futuras manifestações.






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