Desafios e esperanças no caminho da alfabetização
- lauras05
- 16 de set.
- 4 min de leitura
Entre barreiras sociais e pessoais, alunos do EJA provam que o retorno à sala de aula pode transformar histórias de vida
Ana Porangaba, Emilenne Queiroz e Luana Passini
No dia 8 de setembro foi celebrado o Dia Mundial da Alfabetização, instituído em 1967 pelas Nações Unidas com o objetivo de reforçar a importância da leitura e da escrita para o desenvolvimento social e econômico. A data chama atenção não apenas para os avanços obtidos nas últimas décadas, mas principalmente para os desafios que ainda persistem, especialmente em países em desenvolvimento, onde o acesso desigual à educação continua sendo um obstáculo.
O Brasil, apesar de políticas públicas e programas voltados à inclusão, ainda convive com altos índices de analfabetismo e analfabetismo funcional (quando o indivíduo sabe ler e escrever, mas não o suficiente para o seu desenvolvimento). Em Campo Grande, o cenário é um reflexo dessa realidade. De acordo com educadores, muitos chegam ao programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) em busca daquilo que foi negado a eles anteriormente: o direito básico de aprender.

A diretora da Escola Municipal Professora Maria Regina Vasconcelos Galvão, Angela Maria Brito, que há mais de três décadas atua na educação, afirma que os motivos que levam alguém a retornar à sala de aula variam entre a realização pessoal e as exigências do mercado de trabalho. "Poucos vêm pelo desejo próprio de se realizar, a maioria busca atender a uma necessidade profissional. Muitas empresas têm exigido maior escolaridade, e esses estudantes voltam justamente para garantir melhores oportunidades de emprego".

Motivações e obstáculos
A realidade enfrentada por esses alunos é marcada por histórias de superação. Maria Bonfim, de 68 anos, retornou aos estudos depois de uma vida inteira sem ter frequentado a escola. Ela descreve com emoção os primeiros contatos com o caderno e o lápis. "Parecia que minha mão era dura para segurar o lápis. Eu não conseguia copiar nada. Agora, parece que amoleceu a junta das mãos e consigo pelo menos escrever. A dificuldade está em juntar as letras e formar as palavras".
Essa dificuldade de ler e escrever impacta não apenas o aprendizado, mas também a vida cotidiana. Justina Vera Aranda, aluna do nível inicial do EJA, relata como a falta de alfabetização limita sua autonomia. "Não é todo mundo que quer ajudar. A gente precisa correr atrás de vizinhos, filhos, para que leiam e expliquem as coisas. Fica tudo mais difícil quando você não sabe ler", desabafa.

Sonhos e persistência
Histórias como essas são comuns no EJA, onde professores enfrentam diariamente os reflexos de uma desigualdade histórica. Débora Rojas de Figueiredo Gomes, docente do nível intermediário, ressalta que a evasão escolar, em muitos casos, está associada a questões estruturais e sociais. "Muitos alunos tiveram a vida escolar interrompida por fatores como a separação dos pais, a distância da escola, a violência nos bairros ou até mesmo a gravidez precoce. São barreiras que, somadas, empurram meninos e meninas para fora da sala de aula".
Mas apesar das dificuldades, há quem enxergue no retorno à escola uma oportunidade de transformação, é o caso de Mauro César Xavier da Costa, de 65 anos, que voltou aos estudos após quase cinco décadas afastado. Determinado, ele revela seus planos para o futuro. "Errar, você só erra até o dia em que quiser. Eu tinha na cabeça que iria concluir meus estudos, e vou terminar. Depois quero ir para a Inglaterra, onde tenho família, e só vou realizar esse sonho se tiver a escolaridade necessária".

A diversidade de perfis e idades é uma das características mais marcantes do EJA. Nas salas de aula, jovens de 15 anos dividem espaço com idosos de 70. Para os professores, esse mosaico representa tanto um desafio quanto uma riqueza pedagógica. Eduardo Malavazi, professor de matemática do nível final, reconhece as dificuldades em equilibrar diferentes níveis de aprendizagem. "Alguns alunos foram alfabetizados há dez anos, outros há quarenta. Conciliar esses ritmos é um trabalho complexo mas enriquecedor. A troca entre gerações é valiosa, porque os mais novos trazem conhecimentos recentes e os mais velhos compartilham experiências de vida".
Já o professor de Educação Física Júlio César Floriano dos Santos observa que, independentemente da idade, os estudantes têm um objetivo em comum: a busca por independência. "O desejo é de ler, escrever e descobrir o mundo a partir das letras e dos números. É uma busca por autonomia e dignidade".
A jovem Maria Eduarda Gonçalves Vicente, de 16 anos, sintetiza esse sentimento em poucas palavras. "Sem estudos a gente não é nada hoje em dia". Para ela, a escola é sinônimo de futuro.

Impacto social
Especialistas lembram que o impacto do analfabetismo vai muito além da sala de aula. O psicólogo Fábio Mazziero, pós-graduando da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), chama atenção para os efeitos sociais da exclusão educacional. "Vivemos em um mundo altamente dependente da alfabetização. Desde acessar serviços do governo até interagir em aplicativos de mensagem como o WhatsApp, tudo exige leitura. Quem não domina essa habilidade acaba ficando à margem de muitos espaços sociais".
No Dia Mundial da Alfabetização, Campo Grande se insere no debate global sobre o direito universal à educação. Mais do que uma data simbólica, o 8 de setembro é um lembrete de que milhões de pessoas ainda aguardam a chance de escrever suas próprias histórias. Nas salas da EJA, essa transformação já começou: está nos cadernos rabiscados de quem aprende as primeiras letras, nas conquistas pessoais de quem sonha com um diploma e na persistência daqueles que, apesar do tempo perdido, seguem acreditando que nunca é tarde para aprender.






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