Crescer em inércia pode trazer problemas à beça
- Beatriz Barreto
- 11 de jul.
- 14 min de leitura
Reportagem busca elucidar como o sedentarismo têm impactado negativamente a saúde de crianças e adolescentes de Mato Grosso do Sul
Beatriz Barreto e Glenda Rodrigues
Não. Caminhar pela casa, ir da sala ao quarto, abrir a geladeira para pegar uma garrafa de água e depois voltar para o mesmo lugar onde você passa horas do dia, não equivale a manter o corpo em movimento como aconteceria em uma atividade física regular. Essa rotina parada, de permanência sentada ou deitada e limitada a poucos passos, tem se tornado cada vez mais comum entre o público infanto-juvenil no Brasil. E o que parece inofensivo revela algo preocupante: o sedentarismo, um problema de saúde pública que tem se manifestado em Mato Grosso do Sul (MS), e que, por desconhecimento ou descuido pode fazer com que crianças e adolescentes cresçam mais vulneráveis ao desenvolvimento de doenças crônicas.
De acordo com um informativo publicado no website do Senado Federal em 2019, a palavra “sedentário” significa aquele que fica sentado, que não sai do lugar. Sendo assim, uma pessoa que não faz nenhuma atividade física ou faz pouquíssima atividade física e fica na maior parte do dia sentado ou deitado, pode ser considerada sedentária. De forma complementar, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, aqueles que, apesar de realizarem algumas atividades durante o dia, como se locomover indo da casa à escola, mas que não se dedicam à prática de alguma modalidade esportiva ou treinos de exercícios físicos, também são sedentários.
No Brasil, há uma data específica voltada para conscientizar sobre a importância de se levar uma vida ativa, com saúde e qualidade: 10 de março, o dia nacional de combate ao sedentarismo. Isso porque, conforme o Ministério da Saúde, uma rotina sem atividades físicas pode gerar riscos à saúde humana tornando uma pessoa mais propensa, por exemplo a desenvolver distúrbios alimentares como diabetes do tipo dois, devido essa condição estar atrelada na maioria das vezes, ao acesso facilitado a alimentos dentro de casa, com ênfase para os ultraprocessados, que podem estimular o interesse por consumi-los em quantidades superiores às recomendações nutricionais. Ou até ficar propensa a doenças como pressão alta, asma, demência e cânceres, como o da mama, estômago e intestino. Problemas cardiovasculares como derrames e ataques cardíacos são outros exemplos de enfermidades associadas a essa suscetibilidade. Além disso, há sintomas como estresse, ansiedade e depressão.

Para evitar esses problemas, Íris, uma bebê de 1 ano e 7 meses, come frutas, verduras e alimentos que não são ultraprocessados, além disso, em suas refeições são evitados usos de temperos. Sua mãe, a engenheira ambiental de 34 anos, Ananda Camargo, acredita que o modo da alimentação na primeira infância pode impactar a vida toda de uma pessoa negativamente ou positivamente. “Uma criança que não adquire hábitos saudáveis na primeira infância dificilmente vai desenvolvê-los quando for adulta”, julga.
A mãe de Íris divide com o marido Bruno Camargo, advogado de 32 anos, as tarefas de administrar a casa e a criação da filha do casal. Enquanto os pais estão no horário de trabalho, a bebê é cuidada pela mãe de Ananda, única pessoa que compõe a rede de apoio diária deles. Nesse período com a avó, Íris brinca de jogar bola, de boneca, faz leituras de livros físicos, sendo essa última uma das principais práticas estimuladas pelo casal.
Bruno e Ananda tiveram a rotina alterada pela pandemia de COVID-19 que impôs ao mundo hábitos de reclusão para preservação da biossegurança. O casal deixou de ter uma vida ativa de exercícios físicos e passaram a ficar mais tempo dentro de casa. Ananda conta que até hoje eles não conseguiram retomar a rotina de antes, embora façam algumas caminhadas e pedaladas. “Eu fiquei sedentária depois da pandemia e estou lutando para reativar em mim essa vontade de fazer exercício físico. Primeiro veio a pandemia, depois fiquei grávida, já estou há quatro anos sedentária”, lamenta. Sua preocupação maior é que isso possa de alguma forma influenciar os hábitos de convívio social de sua filha, estimulando-a também ao sedentarismo no futuro. Por isso, procura sempre, quando pode, fazer saídas ao ar livre em espaços públicos como em parques municipais, com Íris e seu marido.
Ananda e Íris moram na cidade de Campo Grande (MS), a mesma em que também reside Pedro Henrique da Silva, gerente comercial e pai de duas crianças, Mateus e Paulo. Mas essa não é a única característica em comum entre eles, suas formas de pensar também são semelhantes. Da mesma maneira que Ananda, Pedro considera o cuidado com a alimentação dos filhos um incentivo para que eles continuem a praticar os treinos esportivos adequadamente no ambiente escolar e nos parques onde a família frequenta.
No quesito de alimentação, para a criação de seus filhos, Pedro diz dar preferência aos sucos da fruta. Ele antecipa que agir assim pode evitar que eles adoeçam por falta de vitaminas ou proteínas, e ressalta que, na lancheira deles não vai refrigerante, apenas comidas saudáveis preparadas em casa.
A família de Pedro é pernambucana e vive há quatro anos no estado de MS. Ele destaca que, junto à sua esposa, incentiva os filhos a praticarem exercícios físicos e não se predisporem ao sedentarismo. Um de seus locais favoritos para acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhos nas práticas esportivas, é o Clube Ipê no bairro Monte Castelo, onde há treinos de futsal. Hoje em dia, os filhos Mateus e Paulo, prezam pelo esporte e fazem questão de frequentar as aulas inclusive em dias frios. Mateus, o filho mais velho, tem oito anos de idade e Paulo, o caçula, tem seis.

“O Mateus faz um ano e meio que está praticando futsal e garanto que foi uma das melhores coisas que aconteceram para o desenvolvimento dele na parte de disciplina, porque ele tem um horário para acordar, um horário para vir ao treino e para fazer as rotinas dele”, celebra Pedro Henrique com entusiasmo sobre os benefícios da prática esportiva na vida do filho.
Assim como a engenheira ambiental Ananda relatou suas idas aos parques e parquinhos como parte da rotina, Paulo também salientou a importância desses espaços. Além disso, ele considera que a interação social decorrente da atividade esportiva é importante para a saúde mental infantojuvenil.
Aquele que é sedentário, pode ficar doente
Em 2021, Campo Grande (MS), foi apontada como a capital brasileira com maior número de pessoas sedentárias, alcançando o índice de 49,2%, conforme dados do Observatório da Atenção Primária da Umane. Para o psicólogo Luis Carlos Nunes, que atende o público infantojuvenil na capital sul-mato-grossense, nos últimos anos, especialmente depois da pandemia de Covid-19, a procura por atendimento para essa faixa-etária têm aumentado bastante. Ele explica que muitos pais têm buscado ajuda porque percebem mudanças no comportamento dos filhos, como tristeza, apatia, ansiedade e até mesmo dificuldade para se relacionar. Podendo esses comportamentos negativos estarem relacionados principalmente ao sedentarismo vinculado ao uso excessivo de telas, à pressão das redes sociais e à falta de contato social.
Nunes se apoia no posicionamento do Ministério da Saúde, publicado no portal da Biblioteca Virtual em Saúde, que afirma que o tempo gasto com o uso de telas está fortemente relacionado ao aumento do risco de desenvolvimento das doenças referidas à inatividade física. “O isolamento e a substituição de interações presenciais, como de brincadeiras por ambientes virtuais, podem resultar em dificuldades de socialização, maior timidez, problemas de linguagem e atraso no desenvolvimento de habilidades cognitivas como planejamento, atenção e memória”, acentua Nunes.
Durante a pandemia de Covid-19, a família de Pedro Henrique enfrentou desafios parecidos com o de Ananda. A interação com outras pessoas diminuiu e uma estratégia adotada pela esposa de Pedro foi manter os filhos seguros em casa, entretidos com jogos digitais. O pai reforça que nesse período o uso de telas foi inevitável, pois as atividades passadas pela escola onde Mateus e Paulo estudavam deveriam ser executadas em dispositivos digitais, como em computadores. Mas ele observa que esse uso de telas sempre foi regrado e supervisionado, tendo em vista que o uso indiscriminado poderia ser prejudicial.
Atualmente, Pedro estipula limite de horários para o uso de telas de seus filhos. Pela manhã, Paulo e Mateus podem assistir a desenhos e outros entretenimentos similares durante cerca 1 hora. À tarde, usam dispositivos digitais para fazerem pesquisas escolares. Como informado, após o período pandêmico a família implementou o incentivo à prática esportiva para que os meninos não ficassem acostumados à dependência dos estímulos tecnológicos, ou reclusos a acessos únicos a interatividades digitais fornecidas pela televisão, computador ou celular.
O psicólogo Luis Carlos Nunes reforça que o comportamento sedentário envolve atividades realizadas quando a pessoa está acordada, sentada, reclinada ou deitada e gastando pouca energia, ou seja, quando fica nessas posições para usar celular, notebook, computador, videogame e assistir à televisão durante várias horas do dia sem perceber. Nessas condições, os recursos acessados nesses meios digitais, a exemplo da internet, se tornam mais atrativos, como por exemplo acessar as plataformas midiáticas, aplicativos e redes sociais. E que, as redes sociais, por sua vez, têm o potencial de criar um ambiente onde a comparação é constante.
Tal comparação pode desencadear um problema de saúde emocional no qual crianças e adolescentes em fase de formação de identidade, acabam se espelhando em padrões irreais de sucesso, beleza ou felicidade e, dessa forma, absorvem sentimentos de inadequação que afetam profundamente aspectos de sua autoestima. Além disso, segundo o profissional, a busca por validação por meio de curtidas e comentários (mecanismos criados para estimular a interatividade em redes sociais como Instagram, TikTok e Facebook), pode gerar ansiedade e dependência emocional dessas interações virtuais. E em casos mais graves, esse comportamento pode contribuir para o desenvolvimento de sintomas depressivos e transtornos relacionados à imagem corporal, que fazem com que a criança ou o jovem escolha passar mais tempo dentro de casa e em seu quarto.
Em março deste ano, o Governo Federal lançou um guia contendo recomendações para pais, responsáveis e educadores sobre o uso saudável de telas para o público infantojuvenil chamado de “Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais”. Essa publicação tem como objetivo estimular o acompanhamento familiar e educativo para combater o uso excessivo de dispositivos tecnológicos, tais como computadores, televisores, celulares e tablets.
Logo no início do guia, é apresentado um resumo das recomendações, que clarifica em seu texto literal: “Crianças e adolescentes vivem intensas mudanças do crescimento e desenvolvimento corporal, mental e psicossocial, influenciadas por fatores externos, ambientais e culturais. O conjunto de evidências científicas disponíveis atualmente aponta que usos problemáticos ou excessivos de dispositivos digitais por crianças e adolescentes estão associados a diversos atrasos no desenvolvimento cognitivo, emocional e da linguagem, bem como a problemas de saúde e sofrimento mental”.
Dentre as recomendações listadas para alcançar os objetivos do guia, destaca-se a atenção à idade adequada para o uso de dispositivos tecnológicos. Por exemplo, nele, não é recomendado presentear crianças com dispositivos próprios antes dos doze anos, frisando que “quanto mais tarde se der a posse ou aquisição de aparelho próprio, melhor assim”; assim como expô-las a telas, de qualquer tipo, antes da idade de dois anos.
Outras orientações envolvem o controle do tempo e do acesso a redes sociais e aplicativos, como jogos. Para crianças de dois a cinco anos, o tempo de tela deve ser limitado a no máximo, uma hora por dia, preferencialmente com a supervisão de um adulto. De seis a dez anos, o limite é de duas horas diárias; e de onze a dezessete anos, até três horas por dia.
Telas e o sedentarismo
Criar bebê, criança e adolescente sem rede de apoio pode ser uma rotina complexa e exaustiva. Além das demandas relacionadas a fase infanto juvenil dos filhos, como comer, tomar banho, estudar, dormir, se divertir, manter a saúde estável, interagir com outras pessoas, ser protegido(a) de todo tipo de violência, existem também as necessidades básicas do adulto que se responsabiliza por esses cuidados. Sem ajuda para lidar com ambos deveres, essa pessoa pode então entregar ao infante uma presença extenuada. Nesse contexto, por mais impactante que o uso de telas possa representar a saúde infantojuvenil, essa ainda é uma das principais estratégias encontradas na tentativa de resolver e equilibrar os deveres.
Ananda diz que a sua bebê, Íris de 1 ano e 7 meses, não tem acesso a nenhum dispositivo digital. Apesar desses acessos estarem se tornando cada vez mais comuns entre pais e mães de crianças da faixa-etária infantil. “Ela é uma criança muito ativa, brinca bastante, até hoje nunca assistiu a um videozinho de desenho. A gente não faz uso de telas, nem de televisão, nem de celular, nem de tablet”, afirma Ananda.
Preocupada, ela menciona que os responsáveis também são fontes de exemplo quanto ao uso de telas, já que os filhos se comportam de forma espelhada. Em uma visita ao Parque Soter junto com a filha, relembra ter deixado o celular carregando em casa e, ao chegar ao parquinho, observou que todos os outros pais e mães estavam atentos aos próprios celulares, deixando de dar atenção aos filhos e filhas.
O guia do Governo Federal de recomendações sobre o uso saudável de telas para o público infantojuvenil, ressalta ainda que um dos principais fatores que contribuem para o uso precoce e excessivo de dispositivos tecnológicos por crianças e adolescentes é o próprio comportamento dos adultos com quem convivem, geralmente pais e responsáveis, que atuam como modelos e referências. No qual, o uso excessivo desses dispositivos por parte dos adultos tende a ser reproduzido pelas crianças.
Débora Regiane, dona de casa aposentada de 45 anos por invalidez, conta que usa o seu celular praticamente durante o dia todo pois não pode trabalhar devido à um problema de saúde, a espondilite anquilosante, e gosta de acessar as redes sociais e o Youtube para assistir vídeos. Ela diz que só permitiu que o filho Renato tivesse um celular próprio aos nove anos de idade. Essa decisão foi motivada pelo interesse do menino em jogos de corrida, pois ele via seus primos jogarem longe do computador e queria desfrutar da mesma autonomia que eles.
A mãe explica que o celular proporciona mais conforto ao filho, permitindo que ele jogue deitado, por exemplo. Débora também afirma que só autorizou a criação de um perfil próprio nas redes sociais para ele, quando Renato completou doze anos e, mesmo agora aos treze, o acesso continua sendo supervisionado, algo que ele mesmo concorda. “Eu estudo e quando chego em casa gosto de ficar no celular editando vídeos para postar na minha conta do TikTok. Também gosto de jogar, mas não tanto quanto antes”, conta Renato.
“Eu fico no celular, mas eu faço as tarefas e as atividades das aulas de educação física. Também jogo futsal com meu pai aos sábados”, completa ao desconsiderar ser um adolescente sedentário.
Sobre o tema, o psicólogo Luis Carlos adiciona: “Eu meus atendimentos, eu costumo orientar os responsáveis a estabelecer uma rotina equilibrada com horários definidos para o uso de telas e espaços dedicados a atividades físicas, brincadeiras e interações presenciais. É importante que os adultos sirvam de modelo, participando dessas atividades e demonstrando interesse genuíno pela vida dos filhos. Também recomendo momentos de conversa sem julgamento, onde a criança ou adolescente possa expressar suas emoções”. Ele acredita que, em muitos casos, para promover o desenvolvimento emocional saudável é necessário um acompanhamento psicológico que ajude a lidar com esses desafios de forma mais estruturada.

O profissional salienta ainda que, para as crianças e adolescentes, por estarem em fase de crescimento, quanto mais cedo a atividade física for incentivada e se tornar um hábito de vida, maiores serão os benefícios para a saúde, tais como a diminuição da chance de desenvolvimento das doenças; melhora da disposição e do humor; diminuição do uso de medicamentos em geral; controle do peso; melhora o sono; aumento da disposição, relaxamento e divertimento; criação, fortalecimento de laços sociais por meio de brincadeiras que envolvem movimentar o corpo.
Praticar esportes como lutas, ginástica, yoga ou mesmo se movimentar em atividades do dia a dia, como caminhar, correr, pedalar, brincar, subir escadas, carregar objetos, dançar, limpar a casa, passear com animais de estimação, cultivar a terra ou cuidar do quintal, pode contribuir significativamente para a prevenção do sedentarismo entre crianças e adolescentes. Além disso, é importante reduzir o tempo em que se permanece sentado ou deitado assistindo à telas. Uma dica extra de Nunes, é se movimentar por pelo menos cinco minutos a cada hora, aproveitando para mudar de posição, ficar em pé, ir ao banheiro, beber água ou alongar o corpo.
Aquele que é sedentário, pode deixar de ser
No guia de recomendações sobre o uso de dispositivos digitais, é advertido que a implementação de normas reguladoras do uso de celulares em unidades escolares deve ser orientada pela Lei Federal n° 15.100/2025. Lei que proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis para estudantes durante a aula, o recreio ou intervalos entre as aulas, em todas as etapas da educação básica. No qual, explicita que o uso de aparelhos eletrônicos só é permitido para fins estritamente pedagógicos ou didáticos conforme orientação dos profissionais de educação.
O Art. 4º dessa lei estabelece que “As redes de ensino e as escolas deverão elaborar estratégias para tratar do tema do sofrimento psíquico e da saúde mental dos estudantes da educação básica, informando-lhes sobre os riscos, os sinais e a prevenção do sofrimento psíquico de crianças e adolescentes, incluídos o uso imoderado dos aparelhos referidos e o acesso a conteúdos impróprios”, ao considerar que o uso excessivo de telas está associado a uma maior suscetibilidade de desenvolvimento de problemas psicológicos. Essa suscetibilidade se torna ainda mais agravante para a faixa etária que frequenta o ambiente escolar e que geralmente se enquadra dos quatro aos dezessete anos de idade, conforme as diretrizes do Ministério da Educação.
No ambiente escolar, o combate ao sedentarismo é feito com o apoio de políticas públicas que incentivam a prática de atividades físicas. Em Mato Grosso do Sul, a Secretaria de Estado de Educação (SED-MS) é responsável pela articulação da rede pública estadual de ensino. Em parceria com a Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte), desenvolve o Programa Escolar de Formação e Desenvolvimento Esportivo, que busca fortalecer competências, estimular as potencialidades dos alunos-atletas e possibilitar uma melhor qualidade de vida. Esse programa se alinha aos pilares da educação e aos valores olímpicos e paralímpicos.
Já na capital, a Secretaria Municipal de Educação (SEMED) oferece diversas atividades esportivas, artísticas e culturais por meio do programa “Movimenta Campo Grande” da Fundação Municipal de Esportes (FUNESP). Essas ações são voltadas tanto para os alunos da Rede Municipal de Ensino (REME) quanto para a comunidade externa em geral.
Alex Lima é professor de Educação Física da REME e, em 2025, dá aulas na Escola Municipal Elízio Ramirez Vieira. Para ele, algumas das principais barreiras que dificultam o envolvimento dos alunos em atividades físicas são: o uso excessivo de telas, que, para muitos pode ser mais atrativo do que correr e suar; a falta de incentivo à prática esportiva por parte dos responsáveis, influenciada pelos hábitos do próprio núcleo familiar; e a ausência de uma estrutura adequada de políticas públicas voltadas ao esporte, tanto nas escolas quanto nos bairros periféricos.
Além disso, Alex aponta a falta de conscientização das gestões escolares como um obstáculo. Segundo ele, é comum que as aulas de Educação Física sejam "geminadas", ou seja, agrupadas em dois períodos consecutivos apenas por uma questão de organização de horários, o que pode desestimular o interesse dos estudantes a darem continuidade à prática dos exercícios físicos iniciados no primeiro tempo de aula, devido ao cansaço.
Ele enfatiza que o interesse pelas práticas esportivas também pode estar relacionado às condições socioeconômicas em que o público infantojuvenil está inserido. “Quanto maior o poder aquisitivo, o interesse por práticas esportivas é menor, já que essas crianças e adolescentes têm fácil acesso a celulares, computadores e internet de qualidade. Agora, quando o poder aquisitivo é menor, a prática esportiva formal ou recreativa às vezes é a melhor opção. Mesmo assim, vemos menos crianças brincando nas ruas e isso se deve a fatores como a segurança, por exemplo”.
“Sei que o uso de telas e a questão da segurança influência muito nisso, afinal, muitos pais preferem os filhos dentro de casa no celular do que na rua correndo algum perigo”, complementa o professor.
Ele avalia que o uso excessivo de telas compromete o descanso e a qualidade do sono dos estudantes, afetando diretamente a disposição para as aulas, tanto no aspecto físico quanto no cognitivo. “Primeiramente eu destaco a importância das aulas de Educação Física para o desenvolvimento integral deles, tanto físico quanto mental. Explico que temos poucas aulas por semana e que o ideal seria praticar todos os dias, ou no mínimo três vezes por semana. Por isso, eles precisam aproveitar ao máximo”, afirma.
O professor também busca estratégias para engajar os alunos, oferecendo atividades variadas e participando ativamente das práticas junto com eles. “Faço questão de mostrar a eles. Uma coisa é eu dizer que fazer atividade física faz bem, outra é mostrar que eu também faço. Isso gera identificação e motiva mais”, conclui.
Para muitas crianças e adolescentes, a escola é o único espaço onde atividades físicas são praticadas. No entanto, além dos ambientes internos das instituições de ensino, existem iniciativas gratuitas que incentivam essa prática em espaços públicos, como parques, praças e quadras abertas de associações de moradores localizadas em diversos bairros dos municípios de Mato Grosso do Sul. Em junho, por exemplo, a Fundação Municipal de Esportes (Funesp) promove o “Circuito Movimenta CG”, que percorrerá vários bairros de Campo Grande com atividades esportivas e de lazer gratuitas e abertas ao público. A programação incluirá aulões de ritmos, funcional, yoga, entre outras práticas, realizados no Centro Olímpico Vila Nasser.
Apesar de que o hábito de brincar ao ar livre, correr pelas ruas e explorar o mundo físico está gradualmente sendo substituído por horas intermináveis diante de telas e revelando um novo estilo de vida marcado pelo excesso de estímulos virtuais e pela falta de movimento corporal, essas iniciativas são necessárias para evitar o sedentarismo e as problemáticas à ele conectadas. Pensando nisso, em julho, o Programa de Educação Tutorial (PET) Educação Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul realizará a oitava edição da Colônia de Férias, com atividades gratuitas voltadas para crianças de seis a doze anos. A ação ocorrerá entre os dias 21 e 25/07, das 13h às 17h, nas quadras esportivas da Cidade Universitária e visa democratizar essas experiências de práticas esportivas, sobretudo, para pessoas que não dispõem de recursos financeiros para o custeio.






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