Bairros de Campo Grande ganham vida com projetos culturais
- Karita Emanuelle Ribeiro Sena
- 2 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Iniciativas gratuitas têm como objetivo transformar a rotina dos moradores, democratizando o acesso à cultura
Por Mileny Barros, Rafaela Ancel e Rafaela Ribeiro
Longe dos grandes teatros e eventos, a arte e a cultura têm encontrado novos caminhos nos bairros de Campo Grande. São grupos e artistas que, com apresentações gratuitas, ressignificam praças e escolas, numa forma de aproximar os moradores por meio da convivência e da expressão.

Na Praça do Leão, localizada no Jardim Novos Estados, na região Prosa, o grupo Pisando Alto leva uma apresentação imersiva para os moradores, incluindo atos de mágica, dança, malabarismo e muita interação com o público. Todo primeiro sábado do mês, o local se transforma em um circo a céu aberto, totalmente gratuito.
O ator Moreno Mourão é morador do bairro, e conta que foi a partir da convivência com a vizinhança e uma longa parceria que tudo se tornou possível. “A iniciativa aqui na praça começou em janeiro deste ano. Vimos que é uma praça grande e movimentada, um espaço público que não recebe eventos culturais. E o público que mora aqui não vai atrás de espetáculos de circo ou teatro no centro, então pensamos ‘vamos estrear na nossa praça’”.

Francieli Corona, também idealizadora do Pisando Alto, afirma que a arte vai muito além de uma forma de expressão, é um gesto político e afetivo. “A gente vem trazendo essa abundância, levando cultura para os lugares onde ela não chega. Ocupar a praça do bairro é um ato de resistência e de valorização da arte local. Todo primeiro sábado do mês tem espetáculo, e o público já começa a se educar, a esperar e a valorizar esses momentos”.

Para a artista, a reação do público foi o impulso que manteve o grupo ativo e com a esperança de continuar melhorando ainda mais. “No começo, achamos que seria algo pequeno, mas logo o público começou a voltar todo mês. A praça, que era só um espaço de passagem, virou um ponto de encontro e essa troca é o que faz a gente continuar”.
Entre os espectadores fiéis está a professora Gilza Adriana Corona, que sempre participa das apresentações acompanhada da neta, que aos sete anos também é estudante de arte circense. “É maravilhoso. As famílias se reúnem, as crianças brincam e deixam o celular de lado. Precisamos que isso vire rotina nos fins de semana, para que a cultura esteja sempre por perto”, conta a moradora.

Campo Grande carrega o título de pior capital nacional quando o assunto é acesso à cultura, segundo levantamento realizado pelo Datafolha divulgado em agosto deste ano. A cidade teve avaliação negativa em 14 categorias, que incluíam a participação da população em atividades culturais como cinema, teatro, museus, dança, circo, feiras de livro, saraus, concertos, leitura de livros, exposições de arte, entre outras.
Como resistência às dificuldades enfrentadas, além do Pisando Alto, outros artistas e projetos também buscam colaborar para a expansão da cultura na Capital, democratizando o acesso por meio da ampliação territorial. Uma das personalidades envolvidas na causa é o artista e professor Ciro Ferreira. Apaixonado por teatro desde a juventude, Ciro formou-se em Artes Cênicas e trabalha com alunos do Maternal ao Ensino Fundamental. Fora da sala de aula, o artista decidiu misturar seu trabalho com a literatura, levando poesia e contos para o público infantil em escolas, eventos e até aniversários.

Para o artista, os ensinamentos dessa prática vão além das palavras escritas em quadros e livros. “Quando as pessoas escutam uma música, assistem uma dança, espetáculos diversos, ela acaba se alimentando com outras coisas, mais tranquilas, mais calmas, que vão dar uma referência até de vida . Quem está assistindo, não está assistindo à toa”.
As apresentações contam com apoios de eventos realizados pela Fundação de Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul (FCMS). Foi a partir da Lei Aldir Blanc, seguido de um edital federal para fomentação da cultura, que o Pisando Alto também conseguiu se estabilizar para alcançar o público. “Um projeto de quatro apresentações já foi para seis. E o recurso é fundamental. Esse apoio dá liberdade de criação para nós e possibilidade de trazer para a praça. A gente existe como povo porque a gente se identifica e a cultura traz esse elã, o circo é uma das maneiras de contar nossa história”, pontua Mourão.
A FCMS conta com a divulgação de diferentes editais públicos, incluindo recursos como o Fundo de Investimentos Culturais (FIC) que, em 2025, habilitou 130 projetos com um teto de 280 mil reais para cada participante. Os maiores contemplados foram das áreas de audiovisual (39 projetos aprovados), música (40) e artes Cênicas (17). Em 2012, a Secretaria Municipal de Cultura de Campo Grande (Sectur) instituiu o Plano Municipal de Cultura de Campo Grande (PMC), por meio da lei 5.135/2012, para o período de 2013 a 2020, contendo 25 metas. No entanto, não houveram mais atualizações na elaboração de um novo plano.
Enquanto o Pisando Alto transforma praças em palcos a céu aberto com circo, dança e interação, o trabalho de Ciro Ferreira leva poesia e contos às crianças, ressignificando escolas e eventos. Juntas, essas e outras iniciativas mostram que a arte não precisa estar restrita ao centro da cidade: ela pode florescer nos bairros, aproximar vizinhos, criar rotina de encontro e despertar novas experiências.






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