Atividade física é a melhor prática para tratar corpo e mente
- CAMILA RODRIGUES CUNHA
- há 6 dias
- 4 min de leitura
Estudo da Universidade da Austrália Meridional afirma que a prática de exercícios é 50% mais eficaz que medicações prescritas no combate à depressão
Anna Abreu, Joyce Adono, Maria Eduarda Ribeiro, Thalison Augusto e Vitória Geovana
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2024, divulgou dados revelando que mais de um bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo. O que nem todos sabem é que a vida mais ativa é uma grande aliada no tratamento. Cientistas da Universidade da Austrália Meridional em 2023, realizaram pelo menos mil testes com cerca de 120 mil pessoas. Os resultados mostraram que a prática de exercícios por até 12 semanas foi o remédio mais eficaz. Psicólogos e praticantes de diversos esportes relatam como a inclusão dessa prática impulsionou a melhora dos sintomas de sofrimento psíquico.

(Foto: Kisie Ainoã)
De acordo com a psicóloga Ana Flávia Weis, a prática de exercícios físicos é um fator essencial no auxílio do tratamento dessas doenças, uma vez que estimulam, de maneira similar à medicamentos, os neurotransmissores responsáveis pela regulação do bem-estar mental, como a serotonina, dopamina e noradrenalina. Os esportes, em especial os de equipe, auxiliam no desenvolvimento das capacidades sociais, por gerar a construção de laços significativos, expandir a rede de apoio do indivíduo, melhorar a comunicação e diminuir a ansiedade.
Segundo a especialista, ter uma rotina fisicamente ativa conduz a uma melhora substancial na qualidade de sono daqueles que enfrentam essas doenças, portanto ajuda a liberar energia acumulada no corpo e promove uma sensação de cansaço, além de contribuir para a regulação dos neurotransmissores.
Ela destaca que é através da disciplina que se torna possível usufruir dessas melhorias. “Como tudo, o esporte é um processo que é muito bom e ajuda, nós sabemos. Mas é preciso conseguir se engajar nos pequenos passos para chegar lá”.
Apesar dos benefícios do esporte, é importante, não só para aqueles com problemas de depressão, realizar o acompanhamento psicológico para tratar de possíveis complicações emocionais e conflitos internos. O suporte profissional é necessário para a manutenção da saúde mental, principalmente no caso de atletas, que dependem da forma física e podem desenvolver distúrbios psicológicos devido à pressão mental e autocobrança.
Atletas mostram como o esporte pode ser um refúgio para a mente
A poliatleta e estudante de Educação Física, Luana Comparini, afirma que a prática esportiva é uma base importante para a sua saúde mental. “Se o esporte não tivesse entrado na minha vida, eu não estaria tão bem como estou hoje”, diz. O esporte, que serviu como refúgio para aliviar o estresse, proporciona para ela uma sensação de liberdade desde a infância.
A jovem pratica handebol, futebol, vôlei e academia, sendo o futebol a modalidade mais presente em sua vida. Ela relata que a prática teve papel significativo em sua recuperação emocional durante períodos de ansiedade e desânimo. Outras pesquisas, como a do periódico Frontiers (2021), indicam que o exercício físico pode reduzir em até 60% o risco do desenvolvimento da ansiedade. Além disso, o esporte foi fundamental para a construção de sua autoestima e autoconfiança. As modalidades em equipe favoreceram a comunicação e o trabalho coletivo.

Luana Comparini em treino de futebol.
(Foto: Acervo Pessoal)
A atleta lamenta a ausência de redes de apoio psicológico nos ambientes esportivos. “Um assunto que quase não se fala”, segundo a universitária. Em um estudo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul revelou que seis dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro não contam com departamento de Psicologia, evidenciando a falta de estrutura. Se os atletas profissionais ainda enfrentam essa falta de suporte, a situação é ainda mais preocupante para os atletas dependentes. “Se eu tivesse um apoio psicológico teria sido diferente?”, questiona Luana.
Aos oito anos de idade, Manuela Favero iniciou nos esportes por influência dos pais, que sempre incentivaram os filhos a manter uma vida ativa. Desde então, a atividade física tornou-se uma parte importante da sua rotina. Atualmente, ela pratica corrida, academia e tênis.
Mesmo afastada temporariamente por conta de uma lesão no joelho, a atleta conta sobre a importância do esporte para sua saúde mental. “Nunca comecei a praticar esporte pensando em autoestima ou corpo. Pratico porque me faz bem, porque me dá energia. O esporte é meu ponto de fuga”.
A prática de exercícios físicos para o bem-estar mental é reconhecida por psicólogos e psiquiatras, mas, para Manuela, essa descoberta veio na prática. “Quando estou estressada, vou treinar, correr ou ir para a academia. Isso me desestressa. Até quando estou feliz, o esporte me deixa mais feliz ainda”. Ao longo dos anos, Favero se encontrou em várias outras modalidades: futsal, futebol e, recentemente, o beach tênis.
A relação com atividade física vai além do corpo. A jogadora reconhece como a prática de exercícios tem impacto no humor e no equilíbrio emocional “Quando eu não pratico nada, meu humor despenca. Minha família até percebe: fico emburrada e quieta, principalmente quando chove e não dá pra sair”.

Manuela Favero em treino de futebol.
(Foto: Acervo Pessoal)
Apesar de ver a atividade física como um espaço livre e de crescimento pessoal, a jovem também enxerga desafios, especificamente na saúde mental dos atletas. “Nunca vi uma rede de apoio nos lugares onde pratiquei. Isso fez falta. Busquei terapia por conta própria, e me ajudou muito, mas falta esse suporte dentro do esporte aqui em Campo Grande”.
A decisão de buscar ajuda profissional foi crucial para Favero. A terapia ajudou a atleta a entender que não precisava competir para se sentir bem. Mesmo fora dos torneios, ela segue fiel a sua rotina de exercícios, hoje ela enxerga o treino como um aprendizado e não como uma obrigação.(Foto: Acervo Pessoal)
Apesar de ver a atividade física como um espaço livre e de crescimento pessoal, a jovem também enxerga desafios, especificamente na saúde mental dos atletas. “Nunca vi uma rede de apoio nos lugares onde pratiquei. Isso fez falta. Busquei terapia por conta própria, e me ajudou muito, mas falta esse suporte dentro do esporte aqui em Campo Grande”.
A decisão de buscar ajuda profissional foi crucial para Favero. A terapia ajudou a atleta a entender que não precisava competir para se sentir bem. Mesmo fora dos torneios, ela segue fiel a sua rotina de exercícios, hoje ela enxerga o treino como um aprendizado e não como uma obrigação.






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