Além das fronteiras: mestiçagem das letras
- lauras05
- 16 de set.
- 5 min de leitura
A literatura Sul Mato Grossense vive nas correntezas da divisa, na miscelânea das histórias, na fronteira das linhas. Como a cultura mais que plural do estado influencia sua trajetória literária
Clara Dias e Júlia de Cássia
Entre os dias 4 a 12 de outubro ocorrerá em Campo Grande a Bienal do Pantanal, a primeira bienal do livro em Mato Grosso do Sul. O evento manifesta para o estado uma força de propagação da cultura literária, que vai além do grande Manoel de Barros, e continua ecoando pela extensão do Cerrado Pantaneiro. A Bienal contará com duas redes temáticas, a primeira enaltecendo a territorialidade e a cultura regional, e a segunda tratando das tecnologias de criação e divulgação de materiais culturais.

Contexto histórico
O nascimento da literatura sul-mato-grossense é anterior à divisão dos estados. A partir de 1979, com a realocação do governo na nova capital Campo Grande, surgiu uma maneira inédita de fazer literatura regional, um novo espaço que juntou peças de um quebra-cabeça para formar a sua própria cultura miscelânea. Nesse caldo imenso de culturas e misturas de letras e línguas, surgem artistas que carregam histórias de ancestralidade em seus dedos.
Anterior à divisão, no município de Corumbá já se escutava o burburinho da literatura, com uma comunidade de poetas e sonetistas que, influenciados pelo parnasianismo e romantismo, proclamavam seus cotidianos até então ignorados pela capital do Mato Grosso. No ano de 1979, com uma nova cidadania e banhados de esperança, os autores do sul do estado buscavam formalizar suas identidades, mesmo incertos de qual era.
Nesse contexto, destacam-se autores como Paulo Coelho Machado, Ulysses Serra, Maria da Gloria Rosa, que em suas obras retratam de forma lírica, porém não menos historicista, a vida do recém-nascido MS. São esses e outros muitos autores que são dados o título de cronistas da história, Com versos livres, sem apego ao estilo ou qualquer vanguarda, os novos sul-mato-grossenses buscavam nas palavras construir suas identidades e demonstrarem seu orgulho de fazer parte desse novo governo. Procuravam registrar o barulho que se fazia ao sul.
Portanto, a demarcação das fronteiras geográficas do nascido MS delimitaram as influências culturais que a província viria a ter. Conectada diretamente com o Paraguai e a Bolívia, é indispensável citá-los quando falamos de nossa cultura. Nessa salada multicultural, a literatura se estabelece como manual para a compreensão regional de identidades e espacialidades. A história desses povos fica impregnada nas palavras sul-mato-grossenses, estão atreladas a nossa forma de fazer cultura, de se alimentar, de tomar o tereré gelado… Não há estado sem o sopro das fronteiras.

A “princesa da fronteira” Ponta-Porã, que faz divisa com a cidade de Pedro Juan Caballero no Paraguai, é berço da criatividade de um dos autores mais importantes para a conservação da regionalidade do estado. Escritor de modismos, crenças e expressões típicas da fronteira, Hélio Serejo, nascido em Nioaque e criado em Ponta-Porã, iniciou sua carreira escrevendo contos enquanto trabalhava nos campos de plantação de erva-mate. Foi integrante da Academia de Letras do Mato Grosso do Sul, e também jornalista. Suas obras reúnem escritos sobre suas vivências de “homem-fronteira”. Com cheiro de erva-mate nas letras, Serejo escreveu o viver caipira, a cultura paraguaia e boliviana, o versejar simples de um peão trabalhador da fazenda. “Eu sou o homem desajeitado e de gestos xucros que veio de longe. Eu sou o homem fronteiriço que, na infância atribulada, recebeu nas faces sanguíneas os açoites desse vento, vadio e aragano, que, no afirmar da lenda avoenga, nasce nas terras incaicas, num recôncavo do mar, varre o altiplano boliviano, penetra o imenso aberto do Chaco Paraguaio [...].” - palavras do autor em seu livro “Balaio de Bugre”.
A história de Mato Grosso do Sul não poderia estar mais atrelada às histórias dos povos indígenas. Sendo um estado majoritariamente controlado pelo agronegócio, a existência dos povos originários nesse território é por si só uma forma de resistência. Mesmo com a perda de espaço e o apagamento cultural, a literatura indígena regional ainda alcança lugares que a muito tempo foram tomados e colonizados.
O “modernista desconhecido” Lobivar Matos, foi um escritor corumbaense que teve seu nome esquecido após uma morte precoce. Seu livro “Areôtorare” lançado em 1933 mescla denúncia e memória coletiva, trazendo à tona lutas indígenas, lembranças regionais e exclusão social. O nome da obra é também o nome do indígena profeta, contador de histórias do povo Bororó, que preserva ancestralidade e conhecimento. Lobivar foi um dos primeiros escritores a romper com a estética parnasiana e também é um dos pioneiros no Mato Grosso do Sul à versejar sobre temas tão silenciados não só no estado, mas em todo o país.
Panorama atual
Autores regionais como os campo-grandenses Febraro de Oliveira, Andressa Arce, a guató Gleycielli Nonato, e milhares de outros nomes, se esforçam para manter acesa a chama das palavras sul-mato-grossenses. “O mercado literário já é difícil para quem vive no eixo Rio-São Paulo, imagina para uma mulher indígena do interior do interior do país?”, questiona Gleycielli.
Em um cenário onde predominam o coronelismo cultural e o conservadorismo, a literatura indígena, LGBTQIAP+, feminina e paraguaia são uma chama de resistência, de continuidade da identidade plural que é ser sul-mato-grossense.
Em conversa com a escritora e poeta sul-mato-grossense guató Gleycielli Nonato, ela afirma que escrever no Mato Grosso do Sul sendo uma mulher indígena é um ato de resistência. Viver no interior da mata e dos rios a fez ser uma poeta de sensibilidade com a natureza, sua escrita base é um romance da natureza. É a poesia de uma mulher indígena da margem d’água, “minha poesia é de sangue e força”, afirma Nonato.
Gleycielli foi, ainda, a primeira autora indígena a ser publicada no MS e, em entrevista, Nonato pontua que sua poesia é de uma mulher indígena do interior, não apenas do estado, mas do país, por que o Mato Grosso do Sul também está à margem. Ela afirma: “Isso me traz força, me faz ter poesia de força, porque a história de luta dos povos indígenas do MS é uma história de sangue, é uma história de apagamento. O agro toma conta de todo sistema, o agro influencia na política, na religião, na vivência, então os povos originários do nosso estado são povos de luta e eu me influencio poeticamente dentro dessas lutas”.

Febraro de Oliveira é um dos nomes que resiste e conserva as características da literatura regional. O autor nasceu na rua Uirapuru, em Campo Grande, que costumava ser uma ocupação, e hoje dá nome ao seu romance de estreia. Pertencimento e perda são os principais temas da obra, que carrega em cada vírgula a história de uma ocupação que não existe em registro nenhum, apenas na memória daqueles que viveram nela. O romance aborda também temas LGBTQIAP+, violência policial e acima de tudo a busca de se entender no mundo e em si mesmo.
Em defesa da diversidade cultural, a ex-deputada federal e ex-senadora Marisa Serrano evidencia a importância dos concursos literários do estado, que incentivam a produção literária, com participantes de todos os cantos do MS. Os festivais e concursos literários nascem desse objetivo em comum, da democratização do espaço criativo, incentivo à produção, descoberta de novos talentos e a formação de uma comunidade literária que representa o povo sul-mato-grossense.
É nesse contexto que nasce a livraria Hámor, da professora Bianca Resende. Com cuidado na curadoria e zelo pela história do estado, a equipe da editora se preocupa em resgatar, restaurar e propagar o material literário regional. A livraria além de loja também funciona como editora de publicações de autores. O espaço serviu de apoio para a realização dessa matéria, sendo um oásis para literatura independente no MS.






Comentários