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Alimentação desigual: periferias de Campo Grande enfrentam desafios para manter hábitos saudáveis

  • Foto do escritor: Karita Emanuelle Ribeiro Sena
    Karita Emanuelle Ribeiro Sena
  • 3 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Mesmo com avanços na segurança alimentar, famílias das regiões mais carentes da Capital ainda convivem com o alto custo e a escassez de alimentos frescos


Por Marcos Melo e Pietro Vargas

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é um dos esforços públicos para combater a insegurança alimentar e gerar renda no campo. Foto: Reprodução/Prefeitura de Campo Grande.
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é um dos esforços públicos para combater a insegurança alimentar e gerar renda no campo. Foto: Reprodução/Prefeitura de Campo Grande.

Campo Grande vive um paradoxo cada vez mais presente nas grandes capitais brasileiras: enquanto indicadores nacionais mostram melhora recente na segurança alimentar, a realidade nas áreas periféricas continua marcada por dificuldade de acesso a alimentos e por doenças relacionadas à desnutrição. O levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE aponta que a proporção de domicílios com algum grau de insegurança alimentar no Brasil caiu de 27% em 2023 para 24% em 2024 — uma queda que, embora relevante, ainda deixa cerca de 18,9 milhões de lares em situação vulnerável.


Mato Grosso do Sul também registrou avanços, alcançando cerca de 80% dos domicílios em condição de segurança alimentar em 2024. Mas, estudos e relatórios de saúde mostram que a Capital apresenta taxas elevadas de sobrepeso e obesidade entre adultos, reflexo de dietas ricas em alimentos ultraprocessados e do limitado acesso a hortifrutis em bairros carentes. 


A desigualdade alimentar em Campo Grande reflete um problema estrutural que vai além do prato: envolve renda, educação, infraestrutura e políticas públicas. Enquanto parte da população tem acesso fácil a produtos naturais e balanceados, outra parte luta diariamente para colocar o básico na mesa. A falta de mercados acessíveis, o preço elevado dos alimentos frescos e a escassez de programas contínuos de apoio reforçam um ciclo de vulnerabilidade que impacta diretamente a saúde e o futuro de milhares de famílias, especialmente nas periferias.


Essas condições ampliam o risco de doenças crônicas e revelam lacunas nas políticas públicas municipais e estaduais sobre oferta, preço e logística de alimentos saudáveis em regiões mais carentes, pontos que constam tanto nos planos municipais de saúde quanto em relatórios estaduais.


Riscos na saúde

O nutricionista Gabriel Cairo alerta que a falta de acesso a alimentos saudáveis nas periferias representa um dos principais fatores de risco nutricional, especialmente entre as crianças. "O alimento de baixa qualidade na população vai acarretar no ganho de peso, má desenvolvimento e consequentemente diversas doenças". Além disso, a carência de frutas, verduras e proteínas de qualidade compromete o desenvolvimento físico e cognitivo de crianças e adultos. 


O impacto da desigualdade alimentar vai muito além da mesa: crianças expostas à má nutrição tendem a apresentar dificuldades de aprendizado, maior propensão a doenças crônicas na vida adulta e prejuízos irreversíveis no crescimento. Cairo complementa que, segundo novas pesquisas americanas, a sociedade sem acesso a uma dieta saudável e regular terá expectativa de vida reduzida em pelo menos um ano. "Estamos andando para trás. Muito se deve a essa troca de alimentos saudáveis por snacks industrializados, por exemplo".


A ausência de políticas públicas eficazes de educação alimentar e o alto custo dos alimentos naturais tornam o problema ainda mais urgente. Para os nutricionistas, é essencial que haja incentivos à produção e distribuição de alimentos saudáveis nas comunidades, para garantir que todas as crianças tenham acesso à nutrição adequada desde os primeiros anos de vida.


Fonte: IBGE -  PNAD Contínua (2024)
Fonte: IBGE -  PNAD Contínua (2024)

Papel do Estado

Uma das iniciativas recentes da Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau) foi a participação do órgão em oficinas vinculadas à "Estratégia Alimenta Cidades", programa federal que visa ampliar a produção, o acesso e o consumo de alimentos saudáveis. Na ação, foram debatidas estratégias municipais para a realidade das áreas vulneráveis de Campo Grande.


Além disso, a Sesau está alinhada aos instrumentos de planejamento participativo, o que contou com a convocação de audiência pública para a construção do Plano Municipal de Saúde 2026‑2029. Nele, os usuários do SUS podem contribuir com propostas que incluam a alimentação saudável entre as prioridades.


A  Secretaria de Saúde  promete ainda uma série de ações para reduzir as desigualdades alimentares nas periferias. Há o compromisso de apoiar mais fortemente a agricultura familiar e a produção local de frutas, legumes e verduras.

O Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) é uma das principais ferramentas utilizadas pelo poder público para identificar e acompanhar famílias em situação de vulnerabilidade social. O cadastro do governo federal é essencial também nas ações voltadas à segurança alimentar em Campo Grande. Por meio dele, a Secretaria Municipal de Assistência Social e a Sesau conseguem mapear os bairros com maior incidência de insegurança alimentar e direcionar políticas públicas. Os dados do CadÚnico ajudam ainda a integrar diferentes políticas de saúde, educação e assistência. 


 Outra importante iniciativa na luta contra a insegurança alimentar é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que beneficia diversas famílias em vulnerabilidade social no município. A ação, que conta com investimento do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), forma parceria com a agricultura familiar para a distribuição de alimentos. A execução do programa é da Prefeitura, por meio da parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades) e a Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (SAS), e além disso existe ainda a PAA Indígena, voltada para famílias indígenas da cidade.


Projetos em ação

Projetos sociais desempenham um papel fundamental no combate à insegurança alimentar e na promoção de uma alimentação mais digna nas periferias. Em muitas comunidades, essas iniciativas são o primeiro — e às vezes o único — suporte para famílias que enfrentam a falta de recursos básicos e o alto custo dos alimentos, mesmo com os programas do governo. 


Última ação realizada pelo projeto social Ciranda de Amor levou alimentação para moradores de Campo Grande. Foto: Projeto Ciranda de Amor
Última ação realizada pelo projeto social Ciranda de Amor levou alimentação para moradores de Campo Grande. Foto: Projeto Ciranda de Amor

O projeto social "Ciranda de amor", idealizado pela advogada Maria Luiza Saldanha, tem como objetivo levar uma experiência de vida melhor para essa população de bairros mais carentes da Capital. Essa ação comunitária leva alimentação, diversão e apoio a  moradores. Maria Luiza conta que o foco é ajudar as crianças, e desde 2011 faz esse trabalho de transformar a vida das crianças.


A última ação realizada pelo projeto ajudou centenas de crianças e moradores, e levou cestas básicas para as famílias atendidas. Muitos desses programas também atuam na educação alimentar, que ensina práticas sustentáveis e incentiva o consumo consciente e saudável, mesmo com recursos limitados. As iniciativas tornam-se aliadas importantes das políticas públicas, e atuam onde o poder público nem sempre consegue chegar, contribuindo para transformar realidades.



 
 
 

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