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A mãe do carnaval campo grandense

  • Foto do escritor: CAMILA RODRIGUES CUNHA
    CAMILA RODRIGUES CUNHA
  • 11 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Silvana Torres Valu, criadora do Cordão Valu, compartilha como a festa mais 

famosa do Brasil reflete sua própria história

      

Alice Lemos e Maria Eduarda Ribeiro

Silvana Valu. Foto: Acervo pessoal 


Nascida em 1973 envolta de confete e serpentina, Silvana Torres Valu, mais conhecida como Valu, antes de se tornar um ícone da cidade de Campo Grande, criadora do bloco de carnaval mais tradicional da cidade, teve sua relação com o feriado já premeditado antes de vir ao mundo. Seu pai, intérprete de samba da escola Igrejinha desde 1977, carregava o amor à música e aos tradicionais quatro dias de festa. Sua mãe, entusiasta da ocasião, também fazia questão de arranjar fantasias para que todas as crianças da família pudessem aproveitar e pular ao som das marchinhas, todos juntos.

Ser criada dentro desse contexto moldou em Silvana todas as expectativas e paixões a respeito do tal feriado. Enquanto a maioria das crianças aguardavam ansiosamente pelo natal, Silvana contava os dias para o carnaval, uns esperam para montar os enfeites natalinos e abrir os presentes deixados pelo papai noel, ela espera para montar sua maquiagem e receber o presente que só a folia traz para alma. O domingo de carnaval tinha o papel de reunir uma família com o pretexto que eles entendiam e amavam como ninguém. 

Com o coração cheio de festa, bombeando o sangue carregado de cor e êxtase, Silvana não deixou o legado carnavalesco para trás, muito pelo contrário, foi a que mais o levou a sério. Ao ingressar no curso de História da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), além de descobrir o gosto por lecionar, ela entra em contato e se aprofunda em entendimentos sociais e militâncias já carregadas em sua trajetória, enfatizando em si a compreensão do papel de resistência e luta que o carnaval carrega, aumentando ainda mais sua conexão com o que ele é e representa em sua história como brasileira. 

O marido Jefferson Contar junto de sua amada sonhavam com o aumento da família, não com um bebê, mas com milhares de pessoas espalhadas festejando pelos arredores da esplanada ferroviária da cidade, a folia tão aguardada por eles. Abençoados pelo feriado, a história do casal é toda envolta da festa. Os anos ninada por samba enredo levou a determinação para que ela pudesse realizar seu maior projeto, Silvana e Cordão Valu são como mãe e um filho muito desejado.


Silvana durante Cordão Valu. Foto: Acervo pessoal



A partir de 2004, a faísca do que se tornaria o filho de Valu e Contar começa a surgir. O amor mútuo pelo carnaval, samba e marchinhas reuniu os dois em mais do que apenas interesses e tópicos em comum, além de criarem juntos o que seria o maior cordão de carnaval da cidade, no mesmo ano eles engataram o início do relacionamento, esse que por mais uma coincidência se desenrolou em um sábado de carnaval. 

A idealização veio da necessidade de concretizar o carnaval de marchinhas na capital da cidade. Uma conexão comumente estabelecida entre os amantes da rua é a de que: para que exista um bloco de carnaval é necessário que também exista um bar, principalmente para aqueles que precisam manter a concentração de álcool no corpo alta na manutenção da sua diversão. Silvana e Jefferson não pensavam diferente quando criaram seu bloco. Primeiro veio o “Bar Valu” para depois existir o cordão, ele que dentro dessa história de coincidências obteve fundação no Dia Nacional do Samba, 02 de dezembro de 2006. 


O carnaval, antes de Silvana, era realizado apenas em clubes pela cidade. Ela se recorda do momento em que ia para a rua, assim que saía das matinês de carnaval, para ver o pai e a escola de samba passarem na avenida 14 de julho. Retomar a alma do feriado como uma festa acessível e resgatar suas origens no carnaval de rua, como foi unicamente conhecido por muito tempo ao longo dos anos 40 e 50, é uma das principais metas de Valu. Para ela, é gratificante ver o que o cordão se tornou. “Quando a gente colocou o bloco na rua pela primeira vez que a gente falou: Nossa, colocamos mesmo, a gente conseguiu. Foi muito bonito de ver”, principalmente por passar boa parte das décadas de 80 a 90 sem visualizar a movimentação dessa tradição cultural. 

O cordão hoje une toda a população da cidade em forma de antítese , sagrado e profano, individual e conjunto, colorido e preto e branco. Essa festa que por mais que tenha suas raízes em rituais pagãos, também está inserida no calendário como período que antecede a quaresma na tradição católica, ou seja, durante sua construção como feriado nacional, foram travadas diferentes batalhas acerca de sua perversidade e motivação. Curiosamente,  durante uma das edições do Cordão Valu em Campo Grande, enquanto a população passava com o cortejo em frente a Igreja Dom Bosco, o sagrado atuou e se provou não estar longe das festividades carnavalescas. Nessa situação o padre, de batina e coroinha, desceu até a rua e começou a abençoar o cordão.


Silvana Valu. Acervo pessoal


Em outra situação, nos primeiros passos do bloco, os festeiros desciam do Bar Valu pela rua ouvindo samba até acabarem no tradicional “Zé Carioca”, bar reconhecido na cidade pelas bandas de rock alternativo que se apresentam por lá. Nesses casos, não se espera menos do que o conflito de tribos e, considerando o horário e a quantidade de garrafas de cerveja no chão do bar, uma pancadaria ou outra. Novamente, as expectativas não atenderam ao imaginário coletivo e o público todo se misturou. Silvana não lembra se pela euforia, satisfação ou simplesmente pela bebida, mas se emocionou e percebeu-se chorando em pleno carnaval. No fim, durante a história de Silvana, e consequentemente de carnaval na capital, o que movimenta a alma do maior feriado brasileiro é o sentimento de junção de pessoas, motivos e alegrias, o que é um alívio de poder ser vivenciado ano após ano. 

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