Quebra de mito
- lauras05
- 19 de set.
- 3 min de leitura
Jovens rompem o estigma da instabilidade e mostram que gestão financeira é questão de hábito, não de idade
Helena Fuzineli, João Pedro Zequini e Maria Fernanda Moura

Durante muito tempo a geração Z, jovens com idades entre 18 e 25 anos, foi percebida como indiferente em relação a vínculos profissionais e pouco preocupada com o futuro. Contudo, esse estereótipo começa a enfraquecer. Um levantamento feito pelo Serasa, órgão de proteção ao crédito, com um banco de dados sobre o histórico de crédito dos consumidores brasileiros, aponta que cerca de 1,5 milhão de jovens brasileiros renegociaram suas dívidas nos primeiros sete meses do ano de 2025, mostrando assim um aumento de 49,07% com relação a última pesquisa. Os números apresentados contrapõem a ideia de irresponsabilidade e mostram uma geração que busca maior autonomia e segurança financeira diante das incertezas do mundo atual.

Para o psicanalista e doutor em Psicologia Clínica pela USP, Tiago Ravanello, a mudança vai além da necessidade econômica. De acordo com ele, representa um símbolo tanto de afeto quanto de autonomia, servindo como proteção em meio de um cenário instável. “A pandemia deixou claro que carreiras tradicionais não são garantia de estabilidade. Muitos jovens inverteram a lógica: primeiro buscam segurança financeira, depois projetam seus planos de vida”. O mesmo também observa que, apesar de a relação da geração Z com trabalho e consumo ter mudado, esses jovens se destacam diante das gerações anteriores por não aceitarem ambientes opressivos em troca de estabilidade.
Entre os jovens que vivem essa realidade, a estudante de Farmácia Júlia Dias , 21 anos, vive essa realidade. Ao sair da casa dos pais para estudar em Campo Grande, percebeu que havia uma necessidade de se organizar melhor financeiramente. No início, sentia dificuldades para equilibrar suas despesas e acabava gastando além do que seu orçamento permitia. A solução para o seu problema veio através do controle de gastos com listas mensais e mudanças de hábitos. “Ao começar a me organizar, percebi que meu maior consumo era com aplicativo de entrega de comida. Assim, parar de pedir tanto delivery me ajudou a guardar dinheiro”.

Para Júlia, o maior mito em relação às renegociações de dívidas é pensar que é possível “sujar o nome” sem nenhuma consequência. Apesar de muitos pensarem que após cinco anos a situação se resolve, durante esse período a pessoa enfrenta limitações financeiras que podem prejudicar seu crescimento pessoal e profissional. O pensamento dela dialoga com a análise do economista e consultor financeiro Eduardo Matos, que observa que a geração Z tem mostrado maior interesse em estabilizar suas finanças, porém destaca os obstáculos estruturais. “O grande desafio para esse jovem é formar patrimônio em um país de altos juros e renda ainda baixa. Isso exige disciplina e, principalmente, educação financeira, algo que deveria ser ensinado desde cedo”.
Além da organização pessoal, a busca por educação financeira tem se mostrado essencial para que esses jovens alcancem autonomia real. Cursos on-line, aplicativos de controle de gastos e conteúdos digitais sobre finanças se tornaram muito importantes na construção de hábitos saudáveis, permitindo que a geração Z enfrente desafios financeiros que surgirão nas suas vidas com mais segurança.
Ao assumir responsabilidade sobre suas finanças, a geração Z também ressignifica a própria relação com o trabalho e o consumo. Longe de simplesmente acumular patrimônio, esses jovens valorizam experiências, projetos pessoais e qualidade de vida, sem abrir mão de planejamento e disciplina. O protagonismo financeiro, portanto, deixa de ser apenas sobre números e passa a representar uma forma de empoderamento, demonstrando que responsabilidade e independência podem caminhar lado a lado com criatividade e propósito.






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