Por falta de investimento ex-atletas de artes marciais de MS não conseguem continuar no esporte
- CAMILA RODRIGUES CUNHA
- 21 de nov.
- 4 min de leitura
Karateca e taekwondista que ganharam competições, incluindo uma nacional, desistiram da luta
Ana Morilho, Ana Paula Souza, Catarina Azamor, Maria Victória Passos.

Foto das medalhas da entrevistada- Foto de Catarina Azamor.
Lutadoras de artes marciais de Mato Grosso do Sul revelam as dificuldades de profissionalizarem-se. Ambas competiram durante a infância, mas por falta de incentivo interromperam sua jornada profissional. E elas não são as únicas. Em relatório da American Academy of Pediatrics (AAP) de 2016, afirma que 7 em cada 10 jovens atletas desistem do esporte antes dos 13 anos.
Maria Isabel Penna de 19 anos pratica taekwondo, arte marcial criada há mais de dois mil anos na Coreia do Sul. Maria cresceu rodeada pelo esporte e aos 6 anos começou a lutar, com 11 anos começou a competir. Participou do Estadual de Taekwondo 2017, Brasileiro de Taekwondo 2017, Copa do Brasil de Taekwondo 2018 e Copa MS 2019. Ela parou de competir aos 13 anos, mesmo gostando, mas algumas questões levaram a isso, como a cobrança de se adequar ao peso das competições.
Ao ser questionada sobre a percepção do público com arte marcial em Mato Grosso do Sul, Maria relatou desânimo: “Aqui no estado não tem investimento em Taekwondo, o que tem de luta aqui é só o Judô. Ainda é muito desconhecido. Às vezes os campeonatos são vazios aqui no estado pela falta de reconhecimento. Quando eu fui para o Campeonato Brasileiro em Londrina... Nossa, lá é cheio, sabe?”. Essa falta de investimento e o desinteresse da população faz com que diversos atletas que poderiam ser grandes potências do esporte, desistam. Em 2025, o Brasil ficou pela primeira vez no top 3, atrás apenas das potências Turquia e Coreia do Sul, contudo nenhum atleta de Mato Grosso do Sul competiu.

Foto do arquivo pessoal da entrevistada- Maria Isabel e seu irmão.
A forma que a taekwondista encontrou de continuar no esporte foi dando aulas em uma academia no Alphaville, junto de seu pai e irmão. Desde 2018, ela ensina a arte marcial e que desenvolvimento físico e mental ocorre por meio da disciplina e respeito.
Maria Isabel hoje cursa direito na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), mas ela indica ter vontade de voltar a competir, mas acredita estar velha, já que a idade dos competidores do Campeonato Mundial de Taekwondo 2025 é cerca de 21 anos.
Alto custo não permite continuar competindo


Foto do arquivo pessoal da entrevistada.
A karateca (a entrevistada não quis ser identificada) iniciou na luta com 4 anos, pelo incentivo de sua mãe que acreditava ser importante uma mulher saber se defender. “Não gostava de ir para as aulas, era muita cobrança, pelo fato de ter começado a competir muito nova, abalou muito meu emocional esse tipo de competição, eu odiava perder”, afirma a ex-atleta.
Ela começou a competir com 6 anos de idade, tem quatro medalhas de ouro e uma de bronze em competições estaduais, uma de ouro e quatro medalhas de prata em metropolitanos, e uma de ouro em campeonato nacional. “Participei de outras competições, ganhei muito mais, mas perdi as medalhas ao longo dos anos, por não fazer mais parte da minha vida” , afirma.
Ex-atleta parou de lutar com cerca de 12 anos, porque não tinha mais como custear as competições. Essa é a realidade da maioria dos competidores, aponta a pesquisa da Serasa e do instituto de pesquisa Opinion Box, que contou com 2.016 entrevistas realizadas em julho de 2024. Infelizmente, 74% dos atletas não recebia nenhum tipo de incentivo financeiro ou bolsa.

A pesquisa apontou também que 42% dos brasileiros tinham o sonho de ser um atleta profissional, porém, apenas 10% deles chegam a concretizá-lo, e apenas 20% deles conseguem de fato se manter nesta profissão. Essas porcentagens caem ainda mais em relação às mulheres.
A pesquisa mostrou que entre os homens que fizeram algum esporte na infância, 56% já pensaram em seguir na carreira profissional, entre as mulheres, o percentual cai para 30%. Isso evidência a falta do incentivo para mulheres no esporte, especialmente na primeira infância, levando jovens atletas a desistirem do esporte por falta de incentivo e não utilizarem programas como o Bolsa Atleta. Nenhuma das duas ex-atletas recebeu auxílio financeiro na época, que infelizmente impossibilitou a permanência delas.
Bolsa Atleta, o que é?
O programa Bolsa Atleta surgiu em 2004 com a criação da Lei nº 10.891 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a iniciativa de fornecer apoio financeiro aos atletas de alto rendimento com gerenciamento dos estados.
De acordo com Lei Estadual 5.615/2020, a classificação de atletas e técnicos é estabelecida de acordo com a participação em competições ao longo do período anterior à vigência do benefício. Coordenado pelo Governo de Mato Grosso do Sul, por meio da Fundesporte (Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul), o programa oferece ajuda mensal de R$ 500 a R$ 7.500. Bolsa Atleta na edição de 2025/2026, registrou recorde de inscrições, com 937 atletas inscritos e 81 técnicos para o Bolsa Técnico, totalizando 1.018 candidatos, dos quais resultaram em 343 beneficiados, sendo 302 esportistas e 41 técnicos. Desse total, apenas 143 são mulheres.
A implementação do programa foi necessária para a comunidade esportiva, pois o alto nível é essencialmente caro, exigindo recursos, equipamentos necessários, custeio de viagens, além de taxas de inscrição de competições para se manter em nível competitivo. Assim, auxílios financeiros como patrocinadores e programas nacionais, mostraram-se indispensáveis para os atletas. De acordo com o Ministério do Esporte, dos 276 brasileiros que competiram nas olimpíadas, apenas 241 receberam a bolsa, mostrando que ainda existem diversos competidores que não fazem parte do programa.






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