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Infância órfã do feminicídio

  • Foto do escritor: CAMILA RODRIGUES CUNHA
    CAMILA RODRIGUES CUNHA
  • há 7 dias
  • 5 min de leitura

Mais do que a perda da mãe, o crime causa um duplo trauma que rompe a confiança e exige um delicado processo de reconstrução


Por: Adrielle Almeida, Anny Cardoso, Beatriz Fontoura e Nicolly da Silva


Em Mato Grosso do Sul, o Observatório da Cidadania registrou, até novembro de 2025, 30 casos de feminicídio consumados e 68 tentativas, com as residências das vítimas sendo o principal local das ocorrências. Esses índices de violência contra a mulher revelam apenas parte do problema. A outra parte, muitas vezes esquecida, é o impacto desses crimes na vida dos filhos e o dano emocional que lhes é causado. Quando uma mulher é assassinada, especialmente pelo próprio parceiro, as crianças órfãs mergulham em um processo de luto complexo, marcado não apenas pela ausência, mas pela violência extrema e pela ruptura familiar.

Feminicídio é o assassinato de mulheres em razão de gênero, ou seja, pela “condição” de ser mulher, um desfecho fatal muitas vezes precedido por um historico de agressões. No Brasil passou a ser considerado crime pela Lei Nº 13.104 , sancionada em 9 de março de 2015, que estabelece o feminicídio como qualificadora de homicídios no Código Penal Brasileiro e um crime hediondo, com pena de 13 a 30 anos. Essa legislação abrange crimes cometidos no contexto de violência doméstica e familiar, por menosprezo ou discriminação à condição feminina.

A pena pode ser aumentada quando o crime ocorre durante a gestação ou até três meses após o parto, quando a vítima é menor de 14 anos, idosa ou pessoa com deficiência, ou ainda quando o assassinato acontece diante de familiares próximos, como filhos, netos ou até dos próprios pais da vítima, circunstância comum em casos de feminicídio íntimo, em que os filhos presenciam a morte da própria mãe.

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Fonte: Ministério Público do estado de Mato Grosso Sul / Arte: Beatriz Fontoura


A dor silenciosa de uma vida órfã

Quando o feminicídio levou a vida da mãe da autônoma Michele Menezes em 1992, ela tinha acabado de completar 2 anos. “Meu aniversário foi no dia três de janeiro, minha mãe faleceu no dia 16”. Pela sua pouca idade não tem memórias do ocorrido, a percepção do luto veio com o passar dos anos, enquanto crescia. ”Hoje, sim, eu sei o que é luto. Eu era uma criança de 2 anos, eu não tinha dimensão da gravidade do ocorrido”. 

Apesar de não ter memórias da época, ela conta que o seu corpo reagiu à ausência. “De acordo com o que minhas irmãs falam, eu adoeci e fiquei internada, porque eu vivia exclusivamente do peito naquela época”. Memórias trazidas para ela por suas irmãs, as quais fala com muito carinho e afirma que a dor de uma perda tão precoce as uniu ainda mais. “A vida tentou nos separar de todas as formas possíveis, mas nós nos reerguemos, reescrevemos nossa história, somos muito unidas até hoje. Quando a gente precisa uma da outra, estamos lá”.

Crescer sem mãe e sem pai trouxe marcas profundas. “Um dos maiores desafios foi crescer sem base, sem referência, uma pessoa que me aconselhasse, que me mostrasse o caminho, o mundo criou a gente, não é legal. Hoje eu consigo ver o quanto isso me fez falta, uma mãe”. A ausência materna se transformou em uma ferida invisível. “Ela fez muita falta. Eu não tenho lembranças, nenhuma recordação. Ela é um papel em branco na minha vida. Tudo o que sei é o que as pessoas contam. Crescer sem ela foi muito difícil”.

Durante muito tempo, ela evitou falar sobre o assunto, até mesmo com os próprios filhos. “Pela gravidade, pela forma como as coisas aconteceram, eu preferi não contar para ninguém. Foi uma forma de proteção. Meus filhos não sabiam da minha história, nem do motivo de não terem avó. Eu quis blindá-los de uma vida de tragédia, para que não tivessem traumas ou inseguranças”.

Hoje, adulta, ela ainda sente falta de algo que nunca teve. “Eu tenho saudade de uma coisa que eu não vivi. Não tenho uma conexão com ela, não. Mas saudade, sim”. Entre silêncios, ausências e reconstruções, sua história é um retrato da dor que o feminicídio espalha para além da vítima atingindo filhos, famílias e gerações. Uma perda que o tempo não apaga.



O luto infantil após o crime

O luto de uma criança órfã do feminicídio não se compara à perda por um acidente ou doença. Segundo a psicóloga clínica Lucineia Maldonado, especialista em trauma emocional, quando a morte é violenta e intencional, o trauma se agrava.  “Normalmente, o feminicídio acontece pelo pai. E esse pai [deixa de ser] o lugar da segurança. Para a psicologia infantil, ocorre um duplo trauma, porque tem a perda da mãe, simultaneamente com a destruição simbólica da figura paterna ", afirma Lucineia.

Em muitos casos a dor infantil é silenciosa. Crianças não verbalizam o sofrimento como um adulto, cabendo aos cuidadores e novos responsáveis estarem atentos aos sinais comportamentais que revelam o luto traumático. Entre esses indícios, estão o silêncio excessivo ou retração emocional, mesmo em ambientes familiares; regressões comportamentais, como voltar a urinar na cama ou chupar o dedo; brincadeiras repetitivas com temas violentos ou de morte, que funcionam como tentativas de elaborar o trauma, e a culpa verbalizada, quando a criança diz se sentir responsável pelo ocorrido.

A autoagressão, como se morder, bater a cabeça ou arrancar os próprios cabelos, é outro sinal grave, que aponta para um sofrimento extremo e urgente. Isso ocorre porque, nesse estágio do desenvolvimento, a criança ainda não possui recursos internos suficientes para assimilar o que aconteceu, e o trauma ultrapassa sua capacidade de compreensão e elaboração emocional. Conforme a psicóloga, esses comportamentos são pedidos de socorro, e ignorá-los é perpetuar o ciclo de violência que começou na morte da mãe. Crianças que sobrevivem ao feminicídio não são apenas testemunhas de um crime: são sobreviventes de uma estrutura de abandono emocional e institucional que precisa ser reparada.




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Fonte: Lucineia Maldonado - CRP 14/10858 / Arte: Beatriz Fontoura


Quando a criança não possui familiares maternos, como avós ou tios, aptos a assumir sua guarda, ela é encaminhada para abrigos. A família paterna não é acionada devido ao risco de o autor do crime ou outros parentes representarem perigo. Nesses locais, o desafio se acumula, além de garantir abrigo e proteção física, é preciso cuidar de um trauma emocional profundo e complexo, que frequentemente se manifesta de maneiras extremas.

A assistente social Zeli Souza Rodrigues, explica que as marcas da violência são visíveis no primeiro dia, a criança chega em estado de choque tão profundo que apresenta regressões físicas graves. "Alguns perdem a fala, alguns têm muita enurese [xixi na cama]. Alguns não aguentam nem segurar para fazer cocô, eles fazem na roupa, tamanho é o trauma, porque eles não entendem aquilo", explica.

A permanência no abrigo pode levar de um a dois anos enquanto a Justiça decide o destino da criança. Quando a família materna não pode ou não quer assumir a guarda, muitas vezes por também estar vivenciando o luto da filha assassinada, a dor infantil se aprofunda. Antes de serem consideradas aptas para adoção, essas crianças passam por um processo difícil conhecido entre os profissionais como “luto de pais vivos”.



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Imagem: Adrielle Almeida


"É um luto do rompimento, para ele entender que a gente vai procurar outro lar para ele, que vai protegê-lo, pô-lo a salvo", explica Zeli. Nesse período, que pode durar até seis meses, o trabalho psicológico é intenso. É preciso que a criança compreenda a quebra do vínculo com a família biológica e possa ser inserida em uma nova lista de adoção.

Sem o amparo psicológico adequado, o trauma se torna o modo de funcionamento da pessoa na vida adulta. A psicóloga Lucineia finaliza com uma metáfora: o trauma é uma ferida. Com tratamento, a ferida cura, mas a “marca” permanece. O objetivo da terapia não é apagar a história, mas ajudar a criança a crescer e olhar para essa marca, conseguindo seguir em frente e se reconstruir.

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