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Eu, mulher preta, pobre e periférica

  • Foto do escritor: Karita Emanuelle Ribeiro Sena
    Karita Emanuelle Ribeiro Sena
  • 1 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

O rosto das chefes de famílias em situação de vulnerabilidade em Campo Grande


Por Ana Carla Souza, Mariana Azevedo e Nathaly Santos


A maternidade nas periferias é representada por mulheres que sustentam a base de um gigantesco, mas invisibilizado  trabalho no Brasil: a economia do cuidado. São mães que criam seus filhos sozinhas, que vivem uma maternidade coletiva e lutam para sobreviver às margens dos grandes centros. As mulheres retratadas nesta reportagem residem em regiões periféricas distintas de Campo Grande, mas partilham uma realidade comum. 


Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) revelou que, no final de 2024, havia mais de 41 milhões de domicílios no país em que as mulheres são as principais provedoras. O número  reflete não apenas a realidade das moradoras do Jardim Noroeste e do Paulo Coelho, entrevistadas nesta reportagem, mas também uma série de desafios em que o contexto social é quase determinante.  O protagonismo feminino influencia diretamente o perfil dos beneficiários de programas assistenciais do governo federal, como o Bolsa Família, no qual 83,9% dos responsáveis familiares são mulheres.


Gracielli Arruda, 33 anos, tem oito filhos. Moradora há dois anos do Jardim Noroeste, atualmente está desempregada. O bairro onde vive com a família fica na região do Prosa na Capital, mesma área de bairros nobres da cidade, mas que teve crescimento populacional relacionado ao complexo penal instalado na região.


A mãe solo ainda amamenta o filho mais novo e sobrevive apenas do programa Bolsa Família. O auxílio é o que paga as contas. Ela conta que os filhos mais velhos também a ajudam na criação dos mais novos e que a rotina é puxada. “A gente acorda cedo, mas vai dar conta, tem que dar conta”.


Em setembro, o governo brasileiro divulgou a atualização dos dados do perfil de quem recebe o benefício federal. Desses, 73% são pessoas de cor preta ou parda, que representam a predominância entre os beneficiários do Bolsa Família. O programa atende quase 37,4 milhões de famílias, com um valor médio de repasse de R$ 682,22.


Gracielli Arruda depende do Bolsa Família para viver. Na imagem, os filhos recebem presentes de Dia das Crianças do projeto Fazer o Bem, no Jardim Noroeste. (Foto: Ana Carla Souza)
Gracielli Arruda depende do Bolsa Família para viver. Na imagem, os filhos recebem presentes de Dia das Crianças do projeto Fazer o Bem, no Jardim Noroeste. (Foto: Ana Carla Souza)

A dona de casa Maria Quitéria, 57 anos, assume o papel de mãe duas vezes. Com sete filhos já adultos, devido ao tempo livre, ela ajuda a criar uma criança pequena. Natural da região Nordeste, ela se mudou para Campo Grande. Aposentada, Quitéria sobrevive de dois auxílios mensais do governo, o Bolsa Família e o Mais Social, este concedido pelo governo do Estado a mais de 100 mil famílias de Mato Grosso do Sul.


Por ser analfabeta, ela enfrenta dificuldades com a burocracia para a documentação do auxílio e, mesmo não sabendo  a quantia exata que recebe por mês, acredita que é suficiente. “Eu acho que dá. Todo mês eu tenho os meus R$ 450 do Bolsa Família. Aí eu nem sei ler e nem sei escrever, não sei nada. Pode me mostrar qualquer letra que eu não sei, porque eu nunca estudei”.


Para equilibrar o trabalho doméstico com os cuidados da criança, Maria se desdobra para conseguir acesso à saúde para a criança, devido aos tratamentos médicos que  precisa,  um dos motivos que a levou a pedir a guarda do menino.


Maria Quitéria costuma participar de ações sociais no bairro onde mora. (Foto: Ana Carla Souza)
Maria Quitéria costuma participar de ações sociais no bairro onde mora. (Foto: Ana Carla Souza)

Enquanto para Maria a falta de estudos foi um dos principais fatores que limitaram suas oportunidades de trabalho, para Dellice Moraes, de 23 anos, a chegada da maternidade foi o que a fez parar os estudos e perder o emprego. “Minha vida mudou depois que meus filhos nasceram.  É uma coisa muito grande ver os filhos crescerem e querer dar tudo que eles querem. Eu engravidei com 16 para 17 anos e larguei os meus estudos, larguei a faculdade, mas pretendo voltar”.


Mãe solo de dois filhos, Dellice está desempregada e também depende de benefícios do governo, mas complementa a renda como trancista e designer de sobrancelhas. Mesmo com as dificuldades, a mãe não abre mão de tentar oferecer melhores condições para seus filhos. “Os filhos sempre são da mãe, porque os pais só querem meter pressão e pronto. Não querem saber da educação e do amor. Eu procurei ficar com a minha filha desde que ela nasceu e hoje eu não ‘desgrudo’ dela, é minha parceira e tenho orgulho da minha filha”, afirma.


A tracista Dellice Moraes compartilha que hoje tem mais condições de vida do que na sua infância, mas sente na pele o que sua mãe um dia viveu (Foto: Ana Carla Souza)
A tracista Dellice Moraes compartilha que hoje tem mais condições de vida do que na sua infância, mas sente na pele o que sua mãe um dia viveu (Foto: Ana Carla Souza)

“É preciso uma aldeia inteira para ser mãe”

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) afirma que a proteção dos direitos das crianças e adolescentes deve ser feita com a participação de toda a sociedade. Enquanto falta trabalho para as mães e escola para as crianças, e os programas assistenciais não forem suficientes para garantir a cidadania nas favelas, organizações sociais surgem como apoio para famílias em situação de vulnerabilidade, principalmente para as mulheres.


Para quem não tem condições de pagar um advogado, por exemplo, as mulheres atendidas pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e que precisam de orientação ou apoio jurídico podem ser encaminhadas à Defensoria Pública do estado. O órgão é responsável por garantir acesso gratuito à Justiça, acompanhando casos de violência doméstica, divórcio, pensão alimentícia, guarda de filhos e outras demandas. Para mulheres em situação de vulnerabilidade, esse serviço pode representar a única forma de fazer valer seus direitos.


Além disso, projetos sociais dentro dos bairros também atuam no cuidado das crianças. Residente do Grande Noroeste, Maria Helena Esquivel, 58 anos, percebeu que a maternidade sempre foi um fazer comunitário. Mesmo com as crianças passando grande parte do tempo na rua, a vizinhança acaba compartilhando esse papel de cuidado, o que a motivou a criar o projeto “Fazer o Bem”.


Após perder para a morte seus dois filhos, Maria Helena encontrou no projeto uma forma de ajudar outras mães e se recuperar do luto. “É a minha dor. Criei esse projeto pelo amor ao meu próximo. Depois do falecimento dos meus dois filhos, em acidente de moto, para não ficar deitada numa cama, resolvi criar o projeto Fazer o Bem”. Segundo ela, a população do Noroeste é muito carente, o projeto visa ajudar entregando cestas básicas, mas só o alimento não é o suficiente, é preciso afeto e sensibilidade. “Não é só uma cesta básica. Hoje, o ser humano está precisando muito do quê? Do amor, porque essa cesta básica acaba, mas um abraço e uma palavra ficam para a história. É disso que nós estamos precisando”.


A psicóloga social e comunitária Tatiana Samper, uma das fundadoras da instituição Escola das Favelas, afirma que a realidade periférica dos bairros onde grande parte dessas mulheres mora muitas vezes é responsável pela falta de perspectiva para as mães em situação de vulnerabilidade. “Quando pensamos nas mulheres periféricas, sabemos que muitas vezes elas acabam evadindo da escola por uma série de motivos; não é uma questão individual, mas estrutural, e isso acaba colocando a maternidade como uma consequência”.


Desde 2019, o projeto Fazer o Bem realiza ações que atendem majoritariamente as crianças carentes do Jardim Noroeste. Em seis anos, a iniciativa já passou por outros municípios do Estado, como Camapuã e Miranda, e depende de apoio de outras organizações para se manter. “A minha expectativa é que venham mais apoiadores, que venham entrar em contato comigo, porque quanto mais ajuda, mais famílias podemos ajudar”, comenta.


Além das dificuldades para criar os filhos e sustentar a casa, trabalhar fora também deixa de ser uma opção para mães que possuem crianças menores e que precisam de cuidados na maior parte do tempo. “Uma mulher com crianças pequenas, se não tem creche, terá dificuldade de trabalhar. Mulheres de favelas, às vezes, nem têm documentação completa, o que dificulta”, explica a psicóloga .


A psicóloga Tatiana Samper administra a Escola das Favelas desde 2020, com uma equipe multidisciplinar que atende nas periferias de Campo Grande. (Foto: Ana Carla Souza) 
A psicóloga Tatiana Samper administra a Escola das Favelas desde 2020, com uma equipe multidisciplinar que atende nas periferias de Campo Grande. (Foto: Ana Carla Souza) 

A assistente social Vanessa Vieira, coordenadora de Política Judiciária Preventiva do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), explica que o aumento de lares chefiados por mulheres é resultado de fatores estruturais e sociais, como a ausência paterna, a violência doméstica e a busca por autonomia feminina. Programas como o Bolsa Família cumprem papel essencial na proteção social, mas ainda não garantem independência plena. “Esses programas asseguram o mínimo para a sobrevivência, mas não promovem autonomia duradoura quando não estão articulados a políticas estruturantes, como creches, educação e inserção profissional”, afirma.


A assistente social destaca que o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que completa 20 anos em 2025, foi um marco importante ao consolidar a assistência como direito e não caridade, garantindo o acesso a serviços como CRAS e CREAS. Apesar disso, ainda há desafios, como a falta de integração entre setores e a necessidade de qualificação contínua com perspectiva de gênero. Para ela, “a articulação entre Judiciário, assistência social e sociedade civil é essencial para que essas mulheres não sejam atendidas de forma isolada, mas acolhidas integralmente”.


Uma chance de mudar a realidade

Em meio à rotina agitada, a saúde mental dessas mães acaba sendo deixada de lado em muitos momentos. Foi pensando nas formas de gerar renda e motivação para essas mulheres que Laura Tavares, assumiu a coordenação da Instituição Magma há seis anos.


A organização fica no bairro Paulo Coelho, que abriga a ocupação Homex, uma das mais carentes da Capital, segundo a Central Única das Favelas. A instituição tem parceria com o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) da região e acolhe mulheres de todas as idades e crianças. “Chegam muitas mulheres com depressão, casos de violência doméstica e adolescentes, meninas de 13 e 14 anos que engravidam. A maioria são mães sozinhas e que não têm, geralmente, apoio da família. Muitas vezes, o CRAS encaminha, e a gente atende”.


Com cursos de diversas áreas, atendimentos sociais e na área da saúde, Laura comenta que a instituição possui atualmente 250 mulheres cadastradas e se tornou uma forma de incentivo para muitas moradoras. “Sempre tem umas que vêm fazer cursos; se não fazem, participam dos preventivos ou de algumas palestras. As mulheres da Instituição Magma não estão soltas, elas estão dentro da instituição”.


Laura atua de forma voluntária na instituição que atende mães vulneráveis. (Foto: Nathaly Santos)
Laura atua de forma voluntária na instituição que atende mães vulneráveis. (Foto: Nathaly Santos)

Empreendedora e mãe de seis filhos, Joseli da Silva, 36 anos, viu nos cursos de artesanato da organização uma oportunidade de renda extra para ajudar nas contas de casa. Com duas filhas com deficiência, a empreendedora participa semanalmente das aulas e sempre que pode leva as crianças. Além das produções, a artesã também recebe auxílio do governo para uma das filhas PCD e conta com a ajuda do marido nas despesas. “Eu fiquei sabendo dos cursos e comecei a participar. Toda vez que sei de um curso, venho e já chamo o pessoal também. Faço artesanato para ajudar a complementar a renda, porque a conta de água e luz é muito cara. Às vezes, ficamos em casa sem fazer nada, e aqui fazemos algo para ajudar na renda da casa”, relata.


Entusiasmada com as aulas, Joseli divide o seu tempo entre ser mãe, empreendedora e aluna da instituição. (Foto: Nathaly Santos)
Entusiasmada com as aulas, Joseli divide o seu tempo entre ser mãe, empreendedora e aluna da instituição. (Foto: Nathaly Santos)

Mesmo com espaços voltados para o acolhimento dessas mulheres como formas de dar uma nova oportunidade para as mães e trabalhadoras, para a administradora da Escola das Favelas, Tatiana Samper, as instituições não resolvem todos os problemas. “É um dos papéis do terceiro setor onde eu trabalho. Acaba sendo a tentativa de amenizar e fazer meio que um trabalho paliativo, mas não resolve”.


Ela reforça que a união entre o apoio comunitário e a assistência pública para as mulheres periféricas é o que falta para muitas das mães-solo. “A gente precisa de políticas públicas para infância e para maternidade, para que elas possam fazer o pré-natal e ter uma assistência. A gente sabe que existe um programa que as mulheres podem receber um kit maternidade, mas isso ainda é muito irrisório e não cobre a necessidade que a gente tem”, explica Tatiana.

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