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Sem terapia, leitura vira aliada da saúde mental em prisões de MS

  • Foto do escritor: Karita Emanuelle Ribeiro Sena
    Karita Emanuelle Ribeiro Sena
  • 3 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Custodiados encontram nos livros uma forma de aliviar o sofrimento e reconstruir perspectivas de vida


Por Gustavo Henn


Cercados por muros altos e inseridos em rotinas exaustivas, as pessoas privadas de liberdade encontram um grande desafio ao buscar manter a saúde mental no sistema prisional. Superlotação, ociosidade e, sobretudo, ausência de acompanhamento psicológico podem transformar o cárcere em um ambiente de adoecimento coletivo, agravando os desafios já enfrentados para o cumprimento da pena. Em Mato Grosso do Sul, iniciativas como o projeto de Remição pela Leitura estão entre as poucas formas de aliviar esse peso e de oferecer aos custodiados uma alternativa, ainda que parcial, à terapia.


Segundo dados da Diretoria de Assistência Penitenciária da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário de Mato Grosso do Sul (Agepen-MS), foram realizados mais de 1,8 mil atendimentos psicológicos e 388 consultas psiquiátricas em todo o Estado, durante agosto de 2025, nas 37 unidades prisionais administradas pela agência. Apesar dos números parecerem expressivos, representam uma cobertura mínima diante da população carcerária sul-mato-grossense, que ultrapassa 29 mil pessoas, conforme o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública.


A jornalista Tatyane Santinoni, que acompanha o projeto Remição pela Leitura em unidades prisionais do Estado desde 2007, afirma que o acesso à terapia, de fato, é praticamente inexistente. “Não vejo perspectiva da terapia ser levada para os custodiados. Eles perdem a liberdade, mas não os direitos básicos — como saúde, educação e trabalho — e isso deveria incluir a saúde mental”, lamenta. No entanto, esses direitos nem sempre são respeitados. “Em nome da segurança, passam a maior parte do dia nas celas, sem estudar nem trabalhar, e a saúde fica a cargo de um único médico para um imenso número de custodiados”, explica.


Ela relata que, apesar da presença de psicólogos no sistema prisional, o trabalho desses profissionais acaba sendo desviado de sua função original. Muitas vezes, o foco não é no período em que os encarcerados estão nas prisões, mas em seu processo de ressocialização. “Os psicólogos com quem tenho contato acabam desenvolvendo funções burocráticas, responsáveis por programas de preparação para o retorno à liberdade ou pela reinserção no mercado de trabalho. Nunca nesses anos todos eu ouvi referência à presença de psicólogos para atendimento individual dos presos”.


Santinoni conta que a ausência de acolhimento psicológico torna o ambiente ainda mais vulnerável a crises emocionais. “O cárcere é deprimente e as horas são longas lá dentro, então, eles ficam deprimidos. É um processo muito complicado. Também ocorrem muitos suicídios, o que indica elevado grau de depressão”, pontua.


O índice de suicídios é consideravelmente maior dentro das prisões. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2019, a cada 100 mil habitantes, 25,2 mortes foram causadas por suicídio no sistema prisional nacional. Fora dos presídios, o número foi de 6 mortes, quatro vezes menos em comparação aos aprisionados.


Fontes: Depen/Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Gráfico: Gustavo Henn
Fontes: Depen/Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Gráfico: Gustavo Henn

Leitura como terapia e libertação

Diante da carência de atendimento especializado, projetos como o Remição pela Leitura surgem como alternativas de respiro mental e de reinserção social. A iniciativa é acompanhada por Santinoni, atualmente, no Estabelecimento Penal Masculino de Corumbá, mas é aplicada também em outros municípios do Estado.


A proposta é que os custodiados leiam livros de literatura, em oficinas de leitura realizadas pela Agepen, e produzam uma resenha sobre cada obra. Quando aprovada, ela é enviada à Vara de Execução Penal, que concede quatro dias de redução da pena por livro lido. Por ano, cada preso pode participar da iniciativa com até 12 obras, ou seja, reduzir sua pena em até 48 dias.


Livros são fornecidos à população carcerária (Foto: Divulgação/Agepen)
Livros são fornecidos à população carcerária (Foto: Divulgação/Agepen)

Segundo Santinoni, os livros são fornecidos em parcerias com universidades – como UFMS, UEMS, Unigran e IFMS –, que contemplam variadas produções nacionais, de diferentes gêneros. Apesar de muitos ingressarem no projeto movidos pela vantagem da remição, a transformação acaba indo além. “Eles entram pela remição, mas quando começam a ler se apaixonam pela leitura. Reconhecem que a leitura proporciona desenvolvimento cognitivo, melhoram a escrita, o pensamento, a visão de mundo e a socialização”. Ela diz que muitos participantes relatam que se sentem mais preparados para o retorno à vida em liberdade.


Em meio a um contexto de baixo acesso ao tratamento psicológico especializado, a leitura atua como uma forma de terapia dentro do cárcere. “Do meu contato com eles, eu sei que os que participam do projeto têm a leitura como forma de ‘matar a prisão’, de se sentirem livres, de imaginar para além das grades”, completa.


A voz de quem viveu o cárcere

Um ex-presidiário de 37 anos, que preferiu não se identificar, participou do projeto e confirmou o impacto da leitura durante o cumprimento de sua pena. Condenado por tráfico de drogas em 2017, ele conta que o maior desafio foi lidar com o peso emocional da prisão. “Você fica com a cabeça cheia. Sentimentos são de arrependimento, vergonha da família, raiva de si mesmo. Lá dentro o ambiente é pesado, hostil, e muita gente já passou por isso mais de uma vez. Parece que não tem saída”, relata.


Ao participar do projeto, ele encontrou na leitura um refúgio e um novo ritmo e rotina para os dias. “No começo entrei por causa da remição, para diminuir a pena. Depois virou passatempo, distração. Lia para esquecer um pouco onde eu estava”, conta. O ex-presidiário realizou cinco resenhas durante o projeto, totalizando 20 dias a menos de pena. Em liberdade, ele diz que continua lendo e busca reconstruir a vida fora das grades. “A leitura também me fez ver que eu ainda podia mudar. Me ajudou a segurar a cabeça no lugar”, conclui.



Silêncio institucional e resistência simbólica

Apesar dos esforços de servidores e voluntários, o sistema prisional sul-mato-grossense ainda carece de cuidados voltados à saúde mental. A Agepen-MS informa que um dos principais desafios é o fornecimento de medicação psicotrópica. Desde o início de 2025, uma série de medicamentos estão indisponíveis. Conforme a agência, a responsável por disponibilizar os remédios é a Secretaria Municipal de Saúde, por meio de recursos no Ministério da Saúde.


Já em relação aos programas de ressocialização, a Agepen-MS oferece iniciativas educacionais, com diversos níveis de ensino formal, como Ensino Fundamental, Ensino Médio, Ensino Superior e Pós-Graduação. Além disso, também é oferecido Formação Complementar, como cursos técnicos, livres, de capacitação e de qualificação. Além da remissão pela leitura, também há redução da pena por meio do esporte e da cultura.


Para Santinoni, enquanto a terapia não chega aos presídios, a leitura cumpre um papel simbólico e fundamental. “Cuidar da mente é cuidar da dignidade humana. E isso não pode ser negado a ninguém, nem mesmo a quem está privado de liberdade”, defende. Dentro das celas, cada página virada pode representar uma grande conquista. É na leitura que os custodiados encontram  a possibilidade de imaginar um futuro diferente, que parece ser um grande desafio dentro do confinamento.




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