Projeto une saúde sexual e educação em palestras para estudantes
- Karita Emanuelle Ribeiro Sena
- 3 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Iniciativa leva informação sobre saúde reprodutiva a professores, alunos e famílias em escolas estaduais
Por Mileny Barros e Rafaela Ribeiro
Se a saúde reprodutiva feminina ainda é considerada um tabu no ambiente escolar em todo o Brasil, uma iniciativa em Mato Grosso do Sul busca enfrentar essa desinformação. A iniciativa “Educar para transformar” atua desde 2023 em escolas públicas e tem como objetivo promover a integração entre a educação e a saúde, compartilhando conhecimento e informação acerca de prevenção e cuidados com a saúde reprodutiva feminina. Apenas em 2025, foram dez escolas participantes e uma média de mil profissionais capacitados.

Em parceria com a Secretaria de Educação do Estado (SED), o projeto “Educar para Transformar” percorre escolas públicas de Mato Grosso do Sul, através de investimento da Secretaria de Saúde do Estado (SES). O projeto possui duas vertentes, a “Cá Entre Nós” e a “Viver Mais”. O primeiro é voltado para qualificação de professores, profissionais da educação e colaboradores que atuam no âmbito escolar. Nessa etapa, são realizadas palestras e oficinas com equipes médicas e especialistas para reforçar a importância da educação sexual para jovens com o objetivo de ampliar o conhecimento dos educadores.
Ginecologista e obstetra, a médica Bruna Coelho participa do projeto há três anos e faz parte de uma das equipes de capacitação. Para ela, é importante abordar o assunto com os docentes, que também estão presentes na vida pessoal dos alunos. “Nosso primeiro contato vai ser sempre com os professores. Os professores são fonte de informação e muitas vezes os alunos se apegam. Eles têm um vínculo muito bom e acabam se abrindo”.

Nas palestras com os professores, as principais orientações são sobre os métodos contraceptivos, como DIU (Dispositivo Intrauterino) e o Implanon. O objetivo é que os educadores entendam não apenas a funcionalidade dos métodos mas também explicar que os equipamentos estão disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em julho deste ano, o Ministério da Saúde anunciou a incorporação do Implanon ao SUS e iniciou a distribuição de cerca de 500 mil dispositivos em todo o país. A meta para 2026 visa a distribuição de 1,8 milhão de implantes contraceptivos.
“Um dos pilares é evitar a gestação na adolescência, por ser uma gestação, muitas vezes, não programada e que aumenta o risco de uma complicação ou uma prematuridade. A gente orienta e explica que os métodos estão disponíveis pelo SUS. Estamos tentando ampliar o acesso [do DIU e do Implanon] exatamente para que seja possível atender o maior número de pacientes”, destaca.
Com o foco em disseminar informações sobre acesso, garantia e cuidado integral, o segundo encontro do projeto assume o tema “Educar para Transformar: Viver Mais”. Nessa etapa, as ações saem das salas de formação de professores e chegam a toda a comunidade escolar. O projeto oferece palestras e rodas de conversa em eventos como o “Dia da Família na Escola”, reunindo integrantes, pais, alunos e coordenadores.
O trabalho da Liga Acadêmica de Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, a LAGOM, tem sido essencial nessa integração. Em parceria com a Associação de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul, uma das ações é adaptar a linguagem para que as temáticas sejam compreendidas de forma leve durante as ações. A partir de rodas de conversa, as acadêmicas utilizam materiais didáticos, modelos anatômicos e jogos educativos, como o “verdadeiro ou falso”, que estimulam a participação do público.
Segundo Hysllem Mendes, presidente da liga, a experiência ultrapassa o aspecto técnico e amplia o olhar das futuras médicas. “Essas vivências ensinam empatia e comunicação, habilidades fundamentais para qualquer profissional da saúde. A gente aprende a se adaptar a diferentes públicos e a criar vínculos de confiança. É uma troca muito rica”, conta. Muitas vezes, o diálogo ultrapassa o momento das atividades. “Depois das apresentações, é comum que um aluno ou uma mãe venham conversar com a gente em particular, querendo tirar dúvidas mais pessoais”.

Ampliar a linguagem durante as atividades é uma forma de combate ao tabu existente na discussão sobre saúde reprodutiva. Segundo a médica, dentro da escola é comum encontrar adolescentes gestantes durante a participação do projeto. “Fatores psicossociais são de extrema importância e não devem ser ignorados diante desses casos”, explica.
De acordo com a obstetra, os principais empecilhos após o parto incluem o abandono escolar e o isolamento das mães jovens, problemas que ocorrem por falta de apoio familiar ou até mesmo dos companheiros. Em 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que 32% das mulheres de 17 a 24 anos chegaram a abandonar a escola devido à gravidez, relatando necessidade de realizar tarefas domésticas ou cuidar dos filhos.
Direito interrompido
No Brasil, uma em cada 23 adolescentes, de 15 a 19 anos, torna-se mãe a cada ano, mesmo com direitos protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Os dados divulgados pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) revelam ainda que entre e 2020 e 2022, o número de partos na mesma faixa etária chegou a um milhão.
Uma dessas jovens é Gabriela Heylane Fonseca, que foi mãe aos 19 anos, logo após terminar o Ensino Médio. A gravidez não foi planejada e os sentimentos eram confusos. A jovem ainda precisou lidar com problemas financeiros durante o período de gestação. "Infelizmente, deixei meu serviço naquele ano. Já estava insatisfeita e preferi sair. Foi aí que vieram as dificuldades e eu tive apoio somente da minha mãe”.

Ainda segundo o estudo da Universidade Federal de Pelotas, foram quase 50 mil casos de gravidez entre meninas de 10 a 14 anos. A gravidez de meninas menores de 14 anos, é considerada crime de estupro de vulnerável, segundo o Código Penal brasileiro.
Os riscos da gravidez precoce incluem complicações durante a gestação devido à imaturidade e à falta de desenvolvimento corporal, o que pode envolver alterações no sangue, nos órgãos internos e na pressão arterial. Gestantes mais novas também costumam sofrer de déficit alimentar, podendo ocasionar deficiências de cálcio e ferro, vitaminas essenciais para o desenvolvimento saudável, tanto da mãe, quanto do bebê.
CASOS DE GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

Jovem e mãe solo, Gabriela afirma que não pretende ter outro filho por enquanto e para isso, vai começar a utilizar a injeção anticoncepcional. “Quem sabe daqui uns anos”, conta. Em todos os casos, o apoio familiar é essencial para dar acolhimento e estrutura para as mães.
Conforme a obstetra, o diálogo é essencial para clarear também as dúvidas existentes no ambiente familiar e assim garantir um local seguro para as mães jovens. “A gente tem um contato direto com os alunos e com a família, justamente para conseguir ir plantando essa sementinha, de que a paciente pode usar. Não é prevenção contraindicada, não são métodos que futuramente vão fazer mal quando ela quiser engravidar, são métodos seguros”, afirma.






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