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Mãe solo e faxineira dedicada

a rotina de uma mulher trabalhadora


Amanda Melgaço e Denize Rocha dos Santos

 

Às 5h30min, o sol se levanta e junto com ele, uma geração de trabalhadores que lutam diariamente por um futuro de oportunidades e estabilidade. Na movimentada rotina de uma cidade como Campo Grande, há uma figura discreta que, apesar de muitas vezes passar despercebida, carrega



consigo uma carga de responsabilidade e determinação que merece ser reconhecida. Vânia Pinheiro da Silva, aos 47 anos enfrenta diariamente os desafios de ser mãe solo e faxineira, em uma jornada que começa antes de o sol nascer e se estende até tarde da noite.

 

Seu tempo é dividido entre seu trabalho de faxineira e a família que ela mesma sustenta. Após se separar de seu marido, Vânia se viu sozinha na criação das filhas, nas despesas da casa e principalmente em sua vida. Após uma difícil separação, passou por um período em depressão, mas precisou se reerguer para cuidar de suas duas filhas, Júlia e Fernanda.

 

Para as filhas, esta mulher de pele morena, rosto redondo, olhos pretos e cabelos enrolados é uma heroína. Mas, para a própria Vânia, ela ainda se considera uma pessoa que precisa conquistar algumas coisas na vida. Seu maior sonho é ver as filhas formadas e bem profissionalmente, a sensação de dever cumprido só estará completa quando conquistar uma vida confortável para as filhas.

Engraçado pensar que para uma mãe, a sua felicidade nunca é posta em primeiro lugar. A partir do momento que você coloca no mundo uma pessoa, seu maior amor, felicidade e desejo é ver essa pessoa bem.

 

A atitude é louvável, uma mãe que faz de tudo por seus filhos, que corre atrás para não deixar nada faltar a mesa, essa mesma mãe representa muitas outras e é por isso que essa história precisa ser contada.

 

Ela e as crianças

 

A luta de uma mãe começa muito antes de uma criança nascer: despesas, uma boa educação, saúde, além de toda pressão da sociedade postas nas costas de uma mulher. Um dos maiores desafios na vida de Vânia é conciliar sua jornada de trabalho com a criação de suas duas filhas. Julia, a mais nova, com apenas 12 anos, precisou desenvolver uma certa independência enquanto Vânia está no trabalho. Estudando no período vespertino, a menina realiza todas as suas tarefas matinais e se desloca de ônibus até o colégio, retornando ao final da tarde.

 

A preocupação com o bem-estar das filhas é uma constante em sua vida, e ela faz o possível para garantir que tenham o necessário, mesmo que isso signifique abrir mão de tempo juntas. Julia diz que apesar de não conversarem muito, admira o fato de a mãe se esforçar tanto para lhe dar as coisas.

 

Fernanda, sua filha mais velha, diz admirar a mãe, “ela é a maior inspiração, uma mulher independente, forte, carismática, confiante e corajosa”. Com um futuro já encaminhado, casa, emprego, e a correria da vida adulta, mãe e filha não se encontram com tanta frequência, porém, sempre arrumam um jeito para matarem a saudade em meio a tanto trabalho. Fernanda chega a se preocupar com a irmã, mas sabe que sua mãe faz o possível  e o impossível para cuidar muito bem da caçula.

 

Invisibilidade e Discriminação

 

A profissão de faxineira, embora essencial para a manutenção de espaços limpos e saudáveis, muitas vezes é vista com desdém e desvalorização. Vânia compartilha que já enfrentou olhares de julgamento e até mesmo comentários depreciativos sobre seu trabalho. No entanto, ela mantém a cabeça erguida, consciente da dignidade de sua ocupação e do papel crucial que desempenha na sociedade.

Esse papel na sociedade deveria ser mais respeitado, são pessoas como Vânia que tornam o ambiente habitável e agradável. Trabalho como o de Vânia são desvalorizados pela sociedade em geral, porque a ideia de limpar a sujeira de alguém é muito subjugada.

 

Durante a pandemia, esse foi um dos trabalhos mais valorizados. Para se manter protegido do vírus, era preciso passar álcool em tudo, redobrar os cuidados, utilizar máscaras, deixar o ambiente extremamente limpo, mas foi necessário uma pandemia para que esse trabalho fosse valorizado? Não necessariamente, mas a pandemia mostrou ao mundo que esse é um dos serviços mais essenciais que se pode existir no mundo, sem alguém para limpar, higienizar e cuidar o mundo seria caótico.

 

Longas Distâncias

 

A realidade de Vânia é marcada pela exaustiva jornada de deslocamento. Saindo de sua casa no bairro Rita Vieira, ela enfrenta longas horas no transporte coletivo para chegar ao seu local de trabalho em um condomínio na BR-262. Com apenas dois horários de ônibus disponibilizados nesta via, uma pela manhã e um ao final da tarde, a pontualidade é um fator crucial na vida desta trabalhadora, já que as opções de transporte são escassas.

 

O cansaço acumulado pelos trajetos diários não é apenas físico, mas também emocional, conforme ela se preocupa com suas filhas e anseia por mais tempo ao lado delas. Em uma conversa com Vânia, ela compartilhou detalhes de sua rotina:

 

"Eu acordo por volta das 5h30min da manhã, preparo tudo para o dia, incluindo o almoço da minha filha mais nova, que estuda à tarde. Saio de casa por volta das 6h50min, às vezes pego carona durante a semana ou vou indo de ônibus. Meu expediente vai das 7h30min às 15h50min, com uma breve pausa para o almoço. O retorno para casa é uma verdadeira corrida contra o relógio, pois se atrasar alguns minutos, perco o único ônibus disponível. Chego em casa por volta das 18h, preparo o jantar e tento descansar um pouco antes de recomeçar tudo no dia seguinte."

 

Silvia Cristina Porto, analista administrativa e amiga de Vânia há sete anos, conta que a rotina da colega é árdua, pois sendo um serviço externo é preciso enfrentar sol, chuvas e frio. Porém, mesmo com as dificuldades e um salário que nem sempre supre as necessidades de uma casa, já se acostumou em ver a amiga sempre forte e firme pelas manhãs.

 

Apesar dos obstáculos, Vânia mantém uma postura resiliente e determinada, buscando sempre o melhor para suas filhas e para si mesma. Seu maior sonho é ver suas filhas crescerem felizes e bem-sucedidas, e ela trabalha incansavelmente para tornar esse desejo realidade.

 

Seu exemplo de força e perseverança inspira não apenas suas filhas, mas todos aqueles que têm o privilégio de conhecer sua história. Vânia Pinheiro da Silva é muito mais do que uma faxineira; ela é uma verdadeira heroína do cotidiano, enfrentando os desafios da vida com coragem e dignidade.

 

 

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